
Caco Barcellos esteve em Florianópolis lançando o livro-reportagem "Abusado" uns dias antes do meu aniversário, em setembro de 2003. Frank aproveitou bem o ensejo e me presenteou com um exemplar autografado do livro, no qual o mestre Caco escreveu algo como "Para Ana Paula, muito obrigado por apreciar o meu trabalho. Um abraço, Caco Barcellos". Mas nem precisava ser autografado para eu pirar tanto no livro, onde ele conta a história do traficante carioca Marcinho VP e com isso me ensinou muita coisa sobre uma realidade cheia de complexidades do país onde vivo. Devorei o calhamaço de quase 600 páginas em algumas viagens de ônibus entre casa e trabalho. E aquele mesmo exemplar foi lido por mais umas dez pessoas - da família, amigos e colegas do trabalho.
Eu tenho o hábito de passar pra frente livros que já me serviram e que podem ser úteis para outras pessoas. Mas alguns eu guardo embrulhados em papel dourado, e o do Caco era um desses. Só que um dia fui à minha estante procurá-lo, e... cadê? Sumiu. Imaginei que devia estar emprestado. Disparei telefonemas, e-mails e scraps de Orkut para todas as pessoas para quem possivelmente ou impossivelmente eu poderia tê-lo emprestado. Não tive o retorno que esperava. E foi assim que meu exemplar autografado do livro do Caco Barcellos misteriosamente sumiu, levado daqui da minha estante por mãos de alguém que não faço a mínima idéia de quem seja. Isso já faz uns três anos, no mínimo.
Enviuvei do livro. Estive com exemplares novos nas mãos em várias livrarias, mas nunca tive coragem de comprar. Já cheguei a anunciar, perto de datas festivas, que queria um novo de presente, mas nunca ninguém teve coragem de me dar. Cansei de espichar o olho para as novas edições expostas nas livrarias, mas nunca levei nenhuma pra casa. Era como se eu estivesse procurando um substituto para um bicho de estimação que morreu - considerando que os bichos de estimação são sempre insubstituíveis.
O mundo deu suas voltas, muitas voltas aceleradas inclusive, e eu entrei para o amigo secreto organizado pela
Cris-Fiona entre 12 blogueiras de vários lugares do país, com a mediação do bem-sacado
http://www.amigosecreto.com.br/. A querida Fi, com quem eu vinha trocando contatos pelos nossos blogs e pelo bazar dela, conseguiu reunir um grupo muito bacana. No site cada uma preenchia seu perfil e indicava uma lista de presentes que gostaria de ganhar. Eu fiz uma lista grandinha, versátil e com uma boa dose de cara de pau: pedi perfume de 300 reais, secador de cabelo com emissor de íons, cadeira de praia e uma chaleira vermelha. Pedi também alguns cds, alguns dvds e alguns livros... entre eles o do Caco. Mas não tornei pública a minha história triste com o livro perdido.
No fim das contas a minha amiga secreta era a própria Fiona - o que adorei, já que isso veio reforçar uma amizade que a distância está sendo construída de um jeito muito bacana. Fui ao correio buscar minha caixinha e quando senti o peso do pacote deu um frio na barriga. Pensei de cara "não acredito, a Fi me mandou o 'Abusado'." Entrei no carro e travei uma batalha com aqueles durex indescoláveis com que o pessoal dos correios veda as encomendas Sedex. Depois de esfaquear a caixa com a chave do carro, me deparei com uma caixinha de chocolates chamados "Gotas de Felicidade"; por cima, embrulhado em papel de seda branco, o dvd da Amy Winehouse gravado em Londres (uhú!); e por baixo, o lastro da caixa... ele. Um exemplar reluzente da 19a edição de "Abusado". No meio de tudo, uma cartinha manuscrita da Fiona, transbordante de bom humor, delicadeza e carinho.
Ela pensou em me mandar a felicidade em gotas, mas na verdade mandou felicidade em baldes. O autógrafo material do Caco não sei onde foi parar, mas ficou guardado no meu coração. E o meu exemplar novo vai ser novamente devorado, mas dessa vez não a caminho do trabalho. Meus planos para ele envolvem biquíni, cadeira de praia e guarda-sol. Adorei essas últimas voltas que o mundo deu.
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[Felicidade em baldes pra cá, felicidade em baldes pra lá: a minha amiga secreta era a Bárbara, que pediu um dos livros recém-lançados da Stephenie Meyer. Mandei-lhe logo os dois, com mais um par de ingressos para a pré-estréia, hoje, do filme "Crepúsculo", baseado em um dos livros. Todo dia a caminho do trabalho eu passo por uns três outdoors do filme e fico imaginando que lá em São Paulo a Bárbara também está feliz com o presente que eu mandei.]