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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sorry, Amy

Tudo bem que as performances dela no Brasil têm deixado a desejar, mas convenhamos: até uma diva junkie, apesar dos pesares, mereceria ser tratada com respeito.

Explico.

Aproveitava eu a insônia que me fez despertar duas horas antes do relógio para benjaminianamente flanar logo cedo pelos sites de notícias. Achei engraçadinho o destaque dado pelo G1 ao fato de Amy Winehouse ter bebido cerveja no primeiro show do Rio (que pela descrição acabou sendo mais vexaminoso do que o de Florianópolis). Quase caí da cadeira ao me aproximar da foto e olhar o rótulo da garrafa. Meu deus do céu, ela é INGLESA, ela é JUNKIE e serviram SKOL pra essa mulher?
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Tudo bem que há um senso comum que diz que a Skol é uma cerveja boa, que é levinha, que é saborosinha, etc. Brasileiros gostam de cervejas leves - tanto que as boas cervejarias nacionais, como a blumenauense com muito orgulho Eisenbahn, a fluminense Baden Baden e a carioca da gema Devassa têm a variedade pielsen em seu catálogo. Mas quem aprecia cerveja com um pouco mais de cuidado aprende a refinar o paladar para outras variedades de diferentes sabores - variedades com sabor, digamos assim, e não com aquele gosto de água mineral estragada das pielsenzinhas de grande público, todas maculadas com cereais não maltados (acho que fazem isso para que possam ser vendidas a 1 real nos supermercados). Cada um na sua, mas essas eu não levo pra casa.
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Amy Winehouse é quem é. E é inglesa. Na Inglaterra as pessoas entornam pints e pints de Old Speckled Hen, Guinness, 1999 e por aí afora.
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Daí a infeliz diva vem ao Brasil, pede uma cerveja, servem a ela Skol. Na boa: eu também diria no, no, no. E iria embora do palco sem dizer tchau.

"WTF? They told me this was the best Brazilian beer, but it tastes like piss with water" (Foto do G1)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

Então tá, Amy

Ela errou as letras, trançou as pernas, perdeu as entradas, esqueceu os nomes dos músicos da banda, saiu do palco várias vezes, pediu arrego para os backing vocals, contemplou distraidamente suas cutículas e não disse nem olá nem tchauzinho. Ainda tem seu vozeirão, mas a impressão que tenho é que para Amy Winehouse a decadência é irreversível. Fiquemos, pois, com seus dois únicos álbuns e as poucas lindas músicas que ela conseguiu produzir. Melhor deixá-la em paz com seus problemas e suas paranoias, chorando no chão da cozinha.

Espero, claro, morder a língua.

sábado, 26 de junho de 2010

Mais um revival dos anos 90

Podem falar mal da televisão em linhas gerais, mas eu adoro as boas surpresas que o zapping pode proporcionar. Explico.

Ontem, depois das nove da noite, lá estava eu aplicada na minha malhação. No treino novo tenho que fazer 35 minutos de atividade aeróbica com batimentos de até 145. Empolerei-me no transport (aqueles aparelhos que são meio uma bicicleta, meio uma corrida) e pluguei meus fones de ouvido ao monitor de tv (na minha academia cada equipamento de aeróbico tem sua própria tv, o que é muito legal).

Zapeando, tirei obviamente da novela da Globo e passei pelos principais canais de séries, entrevistas, etc. Na HBO2 me deparei com um programa do Elvis Costello, tipo uma Oprah do rock, no qual os entrevistados da vez eram Bono Vox (antes de se quebrar - hehe) e The Edge. Sou fã meio desnaturada, mas sou fã. Fiquei por ali. Algumas impressões:

1) Permitam-me ser tiete, mas adoro a voz do Bono either singing or talking. Tanto ele quanto Edge falam um inglês muito bonito - sem aquele forte acento dos irlandeses, mas classudo e bem pronunciado - a ponto de ser facilmente compreendido por quem estuda um pouco como eu.

2) Momento bonitinho: Bono comenta que começou a namorar a atual mulher, Ali, sua companheira há 30 anos e mãe de seus quatro filhos, no mesmo mês em que formou o U2 com os três amigos. "Foi um mês em que as coisas deram certo pra mim". Não é fofo?

3) Costello pergunta sobre alguma música da banda que eles julgam ter sido "injustiçada" pelo mercado (não foi bem esse o termo, mas a ideia é essa). Edge menciona "Faraway, so close", do álbum Zooropa, de 1993, feita para a trilha do filme de mesmo nome, de Wim Wenders - uma alegoria maluca de anjos que zelam pelas pessoas na Terra, até que um deles resolve "cair" e se tornar humano. Acho estranho que seja uma música pouco badalada, porque é uma das minhas prediletas. No clipe, Bono & cia. representam anjos tais como os do filme e chegam a se deparar com Natassja Kinski - a "anja" Raphaela do filme, no-jeeeeeenta de tão linda.

4) Àquela pergunta clichê "quais os segredos para ser uma grande banda por tanto tempo", The Edge apresenta uma resposta bem Edgar Morin: a soma dos quatro músicos em si não representa nada, é o que surge da relação que torna a banda uma grande banda. O todo é mais que a soma das partes. Isso vale pra tanta coisa. Parece óbvio, mas é legal pensar nisso depois de tanto tempo com a ciência cartesiana nos reafirmando que um mais um é dois e pronto.

5) No fim das contas fiquei um pouco além dos meus 35 minutos no exercício, para assistir ao programa até o final. Quando desliguei, observei que nas tvs em volta o pessoal estava assistindo à novela da Globo ou aos reprises dos jogos da Copa. Fiz meus alongamentos pensando que, claro, cada um sabe de si e nada contra quem prefere a novela ou o futebol. Mas saber usar o controle remoto também pode ser um ato de inteligência.


sexta-feira, 12 de março de 2010

Muitas perninhas, muitos bracinhos. Muita tristeza




Para nós, leitores e admiradores, a perda do Glauco é a súbita interrupção de um dos trabalhos mais inteligentes do cartunismo brasileiro. Eu, particularmente, sou fã incondicional do taradíssimo Geraldão, da não menos tarada dona Marta e dos dilemas matrimoniais do Casal Neuras (acima). Além do conteúdo hilário, também gosto muito do traço tosco que ele inventou, chego a chutar que meio inspirado no Henfil, com aquele monte de perninhas e bracinhos desenhados simulando o movimento das personagens.

A extensa obra do Glauco vai ficar perpetuada em tudo o que ele já tem publicado e nas prováveis muitas re-re-re-republicações que certamente já estão sendo organizadas, com todos os méritos que ele merece. Mas o que me entristece mais do que a perda intelectual é imaginar o tamanho do drama que a família dele vivenciou durante os momentos de violência a que foi submetida, e que teve um desfecho tão trágico. Glauco, cidadão brasileiro trabalhador e pai de família, e seu filho são mais duas vítimas dessa violência urbana cruel que ninguém consegue entender.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O verdadeiro LFV

Numa sala com quatro mulheres, foi divertidíssimo passar adiante e ler em conjunto esse primor de texto do professor Luis Fernando Veríssimo, publicado na Zero Hora de hoje. É engraçado perceber que, assim como as mulheres, homens despeitados também são implacáveis com seus oponentes - mesmo que este seja um inatingível galã de cinema. Leia o mesmo texto colocando no lugar de George Clooney nomes como Chico Buarque ou Jude Law, guarde as devidas proporções... e ele vai continuar genial.

[E o melhor de tudo: com tanto texto fraquinho e metido a engraçadinho que circula na Internet com autoria atribuída ao Veríssimo, percebo o quanto é bom ler, de fato, um Veríssimo.]

*

O verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftan bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é republicano.

Passe adiante.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Na leveza

A estrutura poderia ser um pouco melhor, com o palco virado para o mar - pequeno detalhe que garantiria visibilidade para a grande maioria do público. Mas encarei, e adorei, o pocket show que Lenine, meu pernambucano número 1, fez hoje à tardinha na praia Brava, dentro do Floripa Tem. Geralmente sou meio avessa a shows de graça por causa da muvuca, ainda mais num local de acesso complicado como a Brava, mas hunny e eu planejamos estrategicamente tanto a ida quanto a volta e nos demos bem. Conseguimos chegar meio perto do palco, mas desisti de disputar espaço com os garotos suados e bêbados que sorviam vodca ruim direto da garrafa possivelmente desde o meio-dia. Nos resguardamos então na sombra do posto salva-vidas, de onde dava para ver a banda a uma certa distância e beber umas skóis mezzo geladas.

A música do Lenine sempre me emociona e vê-lo de perto mais uma vez foi um privilégio. Fiquei lembrando das outras vezes em que o vi ao vivo: há muito tempo, só com violão, num boteco da Lagoa que nem existe mais [nessa ocasião eu conversei com ele depois do show e constatamos que nossos olhos têm a mesma cor de burro quando foge]; depois, no teatro do CIC, na época do álbum "Na pressão"; e há dois anos, no Floripa Music Hall, com o show "Acústico". Sempre é uma experiência memorável. Gosto muito da atual banda dele, em especial do baixista Guila com suas madeixas - hoje, providencialmente presas, com aquele calorão.

[E o melhor de tudo foi olhar pro lado e perceber que estou cercada só de quem me interessa...]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Brincadeirinha de casal

Todo final/início de ano as revistas de fofocas e colunas de cidades provincianas se esmeram para mapear onde os famosos estão passando as festas. Florianópolis, mais do que nunca, ficou cheia daquelas celebridades que a gente lê o nome e fala "tá, mas é quem, mesmo? Ah, sim, aquela menina que fazia Malhação há uns 30 anos". E haja foto daquele bando de gente pseudoimportante posando com caras, bocas, coxas, bundas, peitorais e bíceps para as fotos. E o pior é que não adianta o pobre leitor não querer saber desse tipo de coisa: os sites de notícias destacam quem está onde (e pegando quem) em suas páginas principais. O pobre leitor simplesmente tem que engolir.

Então não consigo deixar de achar engraçada essa nota que está hoje entre as mais lidas da coluna amarela da Globo.com, com fotos do casal de atores espanhois Javier Bardem e Penélope Cruz brincando de apertar a bunda um do outro durante um banho de mar em Fernando de Noronha. Eles podem até ser belos, mas são donos de uma beleza possível, atingível, sem afetações deliberadas. E, enquanto casal, mostram que celebridades também são gente como a gente - sem, contudo, chegar ao nível da Luana Piovani...



[Isso não tem importância nenhuma, mas Javier Bardem e Penélope Cruz são os protagonistas de dois filmes do Almodóvar de que gosto muito: ele, como o ex-policial paralítico no desconcertante "Carne trêmula", e ela como a filha abusada pelo pai e rejeitada pela mãe em "Volver". A cena em que ela encontra a mãe supostamente morta escondida embaixo da cama - 'pero que estás a hacer ahí, mamá?' - mereceria todos os prêmios].

domingo, 12 de julho de 2009

Reencontrando Nietszche e Woody Allen

Tudo bem que era um dia ensolarado, mas a arrumação no escritório era urgente. O problema de arrumar escritório e mexer com papeladas antigas é o tempo que a gente leva lendo coisas legais e rasgando o que já não presta. No meio de um bolo de revistas achei alguns exemplares da Piauí, um oásis de excelentes textos no mercado editorial nacional. Um de meus prediletos é este do Woody Allen, uma inteligentíssima alegoria a respeito de hipotéticas teorias culinárias nietszcheanas. Como é bom reeditar gargalhadas depois de tanto tempo.





Assim comia Zaratustra

Descoberto o livro de dieta do autor de “Além do bem e do mal passado” e “A vontade de poder encher a pança”

Nada como a descoberta de uma obra desconhecida de um grande pensador para deixar a comunidade intelectual alvoroçada e fazer os acadêmicos correrem para todos os lados, como aquelas coisinhas que a gente vê quando examina uma gota d'água num microscópio. Durante uma recente viagem a Heidelberg, feita com o intuito de conseguir algumas raras cicatrizes de duelo do século XIX, calhou de eu esbarrar justamente com um tesouro desse tipo. Quem poderia imaginar que existia um Livro da dieta de Friedrich Nietzsche? Embora sua autenticidade possa parecer temerária para os que se deixam tolher por ninharias, a maior parte dos que estudaram a obra concorda em que nenhum outro pensador ocidental chegou tão perto de conciliar Platão com Dr. Atkins. A seguir, trechos seletos.

***

A gordura propriamente dita é uma substância ou a essência de uma substância ou um modo de tal essência. O grande problema tem início quando ela se acumula nos quadris. Entre os pré-socráticos, foi Zenão quem preconizou que o peso era uma ilusão, e que, por mais que um homem comesse, ele sempre engordaria apenas a metade do que engorda um homem que nunca faz flexões de braço. A busca de um corpo ideal obcecava os atenienses e, numa peça perdida de Ésquilo, Clitemnestra quebra seu juramento de nunca mais fazer boquinhas entre as refeições e arranca os olhos quando se dá conta de que não cabe mais em seus trajes de banho.

Foi necessária a mente de Aristóteles para assentar o problema do peso em termos científicos. Num fragmento inicial da Ética, ele afirma que a circunferência de qualquer homem é igual à medida da sua cintura multiplicada por pi. Isso foi o bastante até a Idade Média, quando Tomás de Aquino traduziu uma série de cardápios para o latim e foram inaugurados os primeiros bons restaurantes de frutos do mar. Jantar fora de casa ainda era malvisto pela igreja e o uso de manobristas na porta era um pecado venial.

Como se sabe, durante séculos, Roma encarou o Sanduíche Quente e Aberto de Peru como o máximo da libertinagem. Vários sanduíches foram obrigados a ficar fechados, e só reabriram depois da Reforma. Pinturas religiosas do século XIV foram as primeiras a retratar cenas de condenação eterna em que pessoas com excesso de peso vagavam pelo Inferno, condenadas a saladas e iogurte. Os espanhóis foram especialmente cruéis: durante a Inquisição, um homem podia ser levado à pena de morte por rechear um abacate com carne de siri.

Nenhum filósofo chegou perto de solucionar o problema da culpa e do peso até que Descartes separou mente e corpo, de tal modo que o corpo podia se empanturrar à vontade, enquanto a mente pensava: "E daí? Não sou eu". A grande questão da filosofia perdura: se a vida não tem sentido, o que se pode fazer com a sopa de letrinhas? Foi Leibniz quem primeiro disse que a gordura consistia em mônadas. Leibniz fazia dieta e exercícios, mas nunca chegou realmente a se livrar de suas mônadas - ou, pelo menos, não daquelas que aderiram às suas coxas. Spinoza, por outro lado, jantava frugalmente porque acreditava que Deus existia em tudo, e é intimidador abocanhar um pãozinho judaico se a gente acha que está lambuzando de mostarda a Causa Primeira de Todas as Coisas.

Existe uma relação entre uma dieta saudável e o gênio criativo? Basta observar o caso do compositor Richard Wagner e verificar o que ele manda para a bucho. Batatinhas fritas, queijo grelhado, nachos - Santo Deus, não há limite para o apetite do sujeito, e mesmo assim sua música é sublime. Cosima, sua esposa, também não fazia feio, mas pelo menos ela corria todos os dias. Numa cena cortada do ciclo dos Anéis, Siegfried resolve ir jantar fora com as donzelas do Reno e, num estilo heróico, consome um boi, duas dúzias de galinhas, diversos cilindros de queijo e quinze barriletes de cerveja. Em seguida, vem a conta e ele está duro. A questão aqui é que, na vida, a pessoa tem direito a um acompanhamento de salada de repolho ou de batata, e a escolha tem de ser feita sob o terror, com a consciência de que não só o nosso tempo na terra é limitado, como também a maioria das cozinhas fecha às dez horas.

A catástrofe existencial para Schopenhauer não era tanto comer, mas sim beliscar. Ele se exasperava com o inútil ato de mascar amendoins e batatinhas fritas enquanto se cumpriam outras atividades. Assim que se começa a beliscar, assegurava Schopenhauer, a vontade humana não consegue resistir ao impulso de beliscar mais ainda, e o resultado é um universo com migalhas espalhadas por toda parte. Não menos desnorteado se mostrava Kant, que sugeria que pedíssemos o almoço de tal modo que, se todos pedissem a mesma coisa, o mundo iria funcionar de maneira moral. O problema que Kant não previu é que, se todos pedirem o mesmo prato, vai sair briga na cozinha para ver quem fica com o último robalo. "Faça o seu pedido como se o fizesse para todos os seres humanos da terra", recomenda Kant, mas o que acontece se o homem que está ao nosso lado não come guacamole? No fim, é claro, não existem comidas morais - a menos que levemos em conta os ovos quentes.

Em resumo: exceto os meus próprios Além do bem e do mal passado e A vontade de poder encher a pança, entre as receitas de fato importantes que modificaram as idéias ocidentais, a Torta Cremosa de Frango, de Hegel, foi a primeira a utilizar as sobras com implicações políticas relevantes. O Mexidinho de Camarões Fritos com Legumes, de Spinoza, pode ser desfrutado igualmente por ateus e agnósticos, ao passo que uma receita pouco difundida de Hobbes, Costelinhas de Leitão Assadas na Grelha, permanece como um enigma filosófico. O grande lance da Dieta de Nietzsche é que, uma vez que osquilos são perdidos, eles continuam longe de nós - o que não é o caso do Tratado sobre o amido, de Kant.

Café-da-manhã
Suco de laranja
2 fatias de toucinho
Profiteroles
Mariscos assados
Torrada, chá de ervas

O suco da laranja é o próprio ser da laranja manifesto e com isso quero dizer que é a sua natureza genuína, aquilo que lhe confere a sua "laranjidade" e impede que tenha o paladar de, digamos, salmão escaldado ou cereais moídos. Para os devotos, a idéia de qualquer outra coisa que não cereal no café-da-manhã gera sobressalto e pavor, mas com a morte de Deus tudo é permitido, e profiteroles e mariscos podem ser comidos à vontade, e até asinhas de galinha fritas com molho picante e queijo.

Almoço
1 tigela de espaguete, com tomate e manjericão
Pão branco
Purê de batatas
Torta de chocolate com recheio de geléia de damasco e cobertura de chocolate

Os poderosos sempre almoçam comidas gordurosas, bem condimentadas, com molhos pesados, enquanto os fracos ficam beliscando germe de trigo e tofu, convictos de que seu sofrimento lhes renderá uma recompensa na vida após a morte, onde costeletas de cordeiro na grelha fazem o maior sucesso. Mas se a vida após a morte é, como eu sustento, uma eterna recorrência desta vida, então os mansos terão de jantar eternamente pratos de baixas calorias e frango grelhado sem pele.

Jantar
Bife ou salsichas
Batatas douradas
Lagosta à Termidor
Sorvete com creme batido ou bolo em camadas

Esta é uma refeição para o Super-Homem. Deixe que os encucados com a angústia dos altos triglicerídios e da gordura trans comam para agradar ao seu pastor ou nutricionista, mas o Super-Homem sabe que a carne marmorizada e queijos cremosos com sobremesas gordurosas e, ah, sim, muita, muita fritura, é aquilo que Dioniso comeria - se não fosse o seu problema de refluxo.

Aforismos

A epistemologia torna a dieta algo discutível. Se nada existe a não ser dentro da minha mente, não só posso pedir o prato que quiser, como também o serviço será impecável.

O homem é a única criatura capaz de não dar gorjeta para um garçom.


[Originalmente publicado na revista New Yorker e republicado no Brasil na Piauí de fevereiro de 2007]

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Adoravelmente biodegradáveis

Eu, que sempre:

1) soube que vou voltar pra Comunicação na minha próxima formação acadêmica;
2) usei camisetas pretas-ou-brancas-básicas-lisas;
3) preferi homens morenos;
4) me disse fã de carteirinha do U2;
5) achei frescura carro com ar-condicionado e vidro elétrico...

... agora:

1) estou começando a estruturar um projeto pra tentar o doutorado na Educação;
2) comprei duas camisetas polo coloridas e listradinhas;
3) estou namorando [e muito feliz com] um galego bem clarinho;
4) nunca ouvi nenhuma música do álbum novo do U2;
5) uso ar-condicionado ligado no frio [até no outono], acho vidro elétrico indispensável e adoooooooro o comando satélite do carro.

E quer saber? Tá tudo ótemo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Onze drops sobre o fim de semana que passou

1) A colheita das laranjas acabou. Hunny e eu surrupiamos um bambu (e o bambu? hehe) da beira do rio do Brás e com isso pudemos apanhar as frutas láááá de cima, que, por pegarem mais sol, suponho, eram as mais bonitas.

2) Aproveitando o clima bucólico, plantamos um pé de abacate. Aguardaremos brincaremos no regato até que nos tragam frutos teu amor teu coração. [Na verdade quem plantou foi hunny, eu só indiquei o local no terreno e fiquei olhando enquanto ele colocava com cuidado a semente germinada na caminha de terra.]

3) Almoçamos tainha no restaurantezinho simples que frequento em Ponta das Canas há quase 20 anos. Estava um dia lindo. No mar, um cardume enorme de golfinhos [golfinhos juntos são um cardume??] deu show.

4) Lavei roupa, passei roupa. Como é bom fazer esse tipo de coisa com calma, caprichando nas borrifadas de Pass Comfort e nas dobraduras dos lençois.

5) Com o frio, ressuscitei minhas pantufas e o aquecedor elétrico [meu R2D2] voltou à ativa. Os cachorros a-dooooooram!

6) Não fui ao show do Roberto, mas ouvi aquela canção: "quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo o mais vá pro inferno". Minha predileta do Rei.

7) Testei um site de backup de blogs que o André me indicou há um tempão. Me loguei e tals, mas sempre que mando fazer o backup dos posts mais antigos ele dá um tilt. E no meu blog apareceu de novo, com data atual, meu primeiro post [a Regina chegou até a fazer um comentário... desculpa aê, fessora!]. Desisti por enquanto.

8) Fiz na sexta-feira a primeira sopa de queijo do ano. Com vinho tinto, é o que há. Outra hora posto a receita, muito facinha.

9) Lola saiu do repouso. Voltou a seu observatório e a perseguir os raios de sol. She's only happy in the sun. Mas ainda manca um pouco de vez em quando, e eu mantenho vigilância. Provavelmente vai ter que ir no vet de novo.

10) Assisti a quatro bons filmes na tv a cabo. Isso sempre acontece quando eu me convenço de que, para cortar despesas, devo deixar esse luxinho de lado. Oh my god.

11) Retomei a leitura dos contos da Virginia Woolf. Do começo.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Parabéns


Tinha que ser um sábado de Carnaval quente e ensolarado pra essa baladeira-praieira-workaholic-mestrandaCDF começar um novo ciclo - que, espero, seja igualmente ensolarado, iluminado e very very warm. Hoje minha querida amiga Tati, que aparece em muitos posts e comenta praticamente todos, está de aniversário. Provavelmente não teremos nenhum contato presencial neste feriadão, já que ela está curtindo o Carnaval e eu, como já relatei no chororô abaixo, preciso ficar isolada do mundo. Mas fica aqui uma homenagenzinha pública e humilde para essa amiga-de-fé-irmã-camarada que merece toda a felicidade do mundo. Cheers!!


[Na foto, eu e a dita cuja numa fexteenha sunset no P12, dando uma de importantes nas almofadas rosa da Veuve Cliquot. O flash da máquina estava desligado, mas o efeito na luz de fim de tarde até que ficou legal.]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O samba que eu não fiz

Já que não adianta muito ficar ranhetando naquela conversa de "eu não gosto de Carnaval", porque nessa época ninguém tem muito pra onde correr, vai um som lindo do álbum "Labiata", do Lenine, que pode servir para embalar num samba mais lentinho os amores efêmeros e quiçá os duradouros que hão de se consolidar por esses dias.






foi na leveza
só sentimento
e me entregou suas palavras
como quem dava um pedaço
delicadeza foi
disse ao meu coração
e ela me deu a intenção
do samba que eu não fiz

ô, sambá
é o que eu quero sentir
ô, sambá
quando eu te ver sorrir
ô, sambá
coisa melhor que eu fiz
mundo caiu no samba
na hora que eu te vi

você me batucou
skindô meu coração
quando eu te vi
sambar assim
aqui neste lugar
onde este mesmo sol
costuma aparecer
e a lua vem ouvir
o som estéreo do mar

ô, sambá
venha me dar seu amor
ô, sambá
que eu sambo aonde for
ô, sambá
é o tempo certo de ser
e eu sambaria o mundo
só pra encontrar você

[Referência importante: a composição é do Lenine com o saudoso Chico Science. Ouça no Goear pra curtir a gravação de estúdio, cheia de percussões legais. E a gravação pirataça em vídeo que peguei no Youtube foi feita num show em Recife, em novembro de 2008.]

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Thank you, Alanis

Alguns dropes sobre a experiência do show de ontem:

1) Alanis Morissette é uma fofa: extremamente simpática, interage com o público sem ser forçada e sem engrisar palavras decoradas em português. Ela sorri aquele sorriso enorme, gesticula e se comunica. Tem de fato aquela voz inacreditável e trabalha com uma excelente banda. Nos sons mais pesados, dança feito uma porra louca no palco, chacoalhando a cabeleira e denunciando algumas de suas melhores fontes de inspiração. Showzaço que valeu cada centavo, cada minuto de empenho e cada pingo de chuva que caiu em cima de mim. Isso me leva ao item 2;

2) começou a chover forte em Jurerê cerca de uma hora antes de o show começar. Mas eu e meu gentil acompanhante combinamos de não arredar pé do bom local que tínhamos conseguido na pista. E a chuva caiu batida nessa hora antes do show e nas duas horas seguintes, até Alanis despedir-se sugestivamente com "Thank you" e sair do palco. Eu nunca na minha vida tinha tomado tanta chuva na cabeça. Qualquer pessoa com um pouquinho de mau humor ficaria incomodada com isso. Mas nós achamos o máximo e rimos muito da situação. E isso me leva ao item 3;

3) a música que eu mais queria ouvir era "Head over feet", que postei logo ali embaixo, por todo um contexto particular. E foi uma das primeiras do show. Adorei e cantei junto, assim como outras mais conhecidas como "You oughta know", cuja letra a Ana Corina nos forneceu em comentário no post anterior. Entre uma música e outra refleti que a segunda já foi cheia de significados para mim, mas agora é apenas uma música legal. E a primeira, que antes era apenas uma música bonitinha, agora virou uma música especial. Nada como um dia após o outro. Nada como as voltas que o mundo dá. E isso me linka ao item 4;

4) sim, eu estava muito bem acompanhada no show por um cavalheiro que se esmerava para me proteger da chuva e me erguia nos braços sempre que Alanis vinha para nosso lado do palco. Vi Alanis bem de pertinho. E isso animava ainda mais a cantar, cantar e cantar gritado, porque cantar em show sem gritar não tem graça nenhuma. Isso, acrescentado ao contexto da chuva, me conduz ao item 5;

5) estou sem voz. Vou fazer um chá com mel e já volto.

[Como não levei câmera, tomei a liberdade de copiar uma fotinha beeem pequenininha do Guto Kuerten, do Diário Online. Ela e outras podem ser vistas em tamanho maior clicando aqui.]

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Tudo culpa sua

don't be surprised if I love you for all that you are
I couldn't help it
it's all your fault

[Hoje tem Alanis Morissette aqui do ladinho de casa. Uhu!]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Será que é tão difícil amanhecer?

De maneira geral eu acho a Fernanda Abreu cool, embora também ache a voz dela meio fraquinha. Quando ela se arriscou a gravar essa obra-prima do meu ídolo Chico Buarque, lembro que fiquei até meio ofendida. Mas agora estou achando bonitinho. De fato é bom poder mudar de idéia. Bom dia pra todo mundo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Ouvindo "Labiata"

Mais uma do Lenine que entra pra minha vida: "É o que me interessa"

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

[E com essa, vai um beijo pra querida Angelita, tão longe e tão perto lá em Barcelona. E outro pro André, meu eficiente fornecedor de música boa.]

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

I cry for you on the kitchen floor

Para um dia nublado e friozinho em Maurília, um som lindésimo da diva junkie Amy Winehouse. Porque a melancolia também faz parte da vida.

[Quem nunca chorou por alguém no chão da cozinha? Eu já.]


sábado, 17 de janeiro de 2009

In the colors

Sempre fico feliz quando ouço essa música do Ben Harper. Combina com dias de chuva como hoje. Mas também com dias de sol.

when you again start hoping
with your arms wide open
come on, dance with me
dance with me
into the colors of the dusk

[Eu acho que o Ben Harper é um Chico Buarque. E sim, eu dançaria com ele.]


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Som do Gil, voz da Gal

Não encontrei o áudio... se alguém tiver, me manda?

Quando a gente tá contente
Tanto faz o quente, tanto faz o frio, tanto faz
Que eu me esqueça do meu compromisso
Com isso ou aquilo que aconteceu dez minutos atrás
Dez minutos atrás de uma idéia já deu
Pra uma teia de aranha crescer e prender
Sua vida na cadeia do pensamento
Que de um momento pro outro começa a doer

Lááááááá
Lálálálá-lá-lá-lá
Lááááááá
Lálálálá-lá-lá-lá
Lááááááá
Lálálálá-lá-lá-lá
Lááááááá
Lálálálá-lá-lá-lá

Quando a gente tá contente
Gente é gente, gato é gato
Barata pode ser um barato total
Tudo que você disser deve fazer bem
Nada que você comer deve fazer mal
Quando a gente tá contente
Nem pensar que está contente
Nem pensar que está contente a gente quer
Nem pensar a gente quer, a gente quer
A gente quer, a gente quer é viver

[Feliz 2009 pra todo mundo!]