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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pequenas coisas de 2010

1) No dia a dia: academia três vezes por semana. Sem nhém nhém nhém.

2) No quintal: mudas de butiá, de graviola, de grumixama, de limão, de araçá roxo.

3) Na matilha: muitos pelos brancos no focinho de Linda Lô. Exames geriátricos com excelentes resultados. A dona do quintal ainda reina.

4) No coração: meu galego tomando conta geral. Acho que eu no dele também.

5) No trabalho: cronogramas cumpridos, qualidade reconhecida, contracheque que compensa. Amigos queridos entraram pra equipe. Boas perspectivas.

6) Na garagem: carro novinho comprado a prestações possíveis.

7) Na vida acadêmica: retorno à minha primeira escola, reencontro com o que realmente gosto, novos amigos. Muito a pensar e escrever.

8) No rosto: Active C XL da La Roche-Posay, ácido hialurônico manipulado e muito filtro solar. Sinais dos tempos, ainda sutis, mas inevitáveis quando sorrio. E sorrio!

9) Na agenda do celular: números antigos voltaram a ser acionados. Números que já foram frequentes e caíram no limbo foram apagados. De uns poucos tenho saudade.

10) Na geladeira: saiu a carne de porco. Saiu o refrigerante. Entrou muita água de coco de caixinha. Continua entrando muita cerveja de qualidade a compartilhar só com quem é merecedor.

11) No pulso: voltei a usar relógio. Ganhei um lindíssimo da Guess (coisa do moço do item 4). E comprei um monitor cardíaco pra incrementar as horas passadas sobre a esteira.

12) No armário: mais do que eu preciso, sem dúvida. Mas gosto de tudo. E passei pra frente muita coisa boa que já não usava.

13) Na estante do escritório: muita teoria do jornalismo, muita metodologia de pesquisa, Boaventura de Sousa Santos e Edgar Morin.

14) Nos pés: troquei a lixa pelo esfoliante. Enfeito-os com melissas e saltos que já consigo, de novo, usar.

15) No sangue: proteína C reativa inferior a 3. Isso explica muita coisa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Saudação à primavera

A querida amiga Marta Scherer, jornalista como eu, doutoranda em literatura, loura, linda, alta e poderosa, habilmente driblou a correria nossa de cada dia e cometeu a delicadeza de mandar bem cedinho este texto de Cecília Meireles, alertando para a importância de não esquecermos de saudar a primavera, "dona da vida". Não esqueçamos, pois!


Primavera
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, p. 366.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Lacrimejei



Saramago chorou quando assistiu à versão cinematográfica de "Ensaio sobre a cegueira", do diretor brasileiro Fernando Meirelles. E não foi de raiva...

José Saramago

Soube da morte do Saramago por um telefonema de minha mãe, enquanto eu estava na academia hoje de manhã - em tempos dessa chatice de Copa do Mundo eu mal ligo a TV, e hoje excepcionalmente saí de casa sem nem ter ligado o computador. Well. Gostei muito da ideia expressa pelo Gustavo Gitti no blog Papo de Homem, sobre o polêmico escritor português de quem sou fã incondicional: "Ele mostrou que um ateu pode ser muito mais humanista que um religioso". Compartilho dessa opinião e mais uma vez tenho a cara de pau de fazer minhas as palavras do Gitti. Vejam o que ele diz sobre Saramago aqui.

Numa breve busca aqui no blog, percebi que falei em Saramago em quatro posts: este, este, este e este. Espero que o Caderno, linkado ali do lado, não seja tirado do ar pela família. Sempre gosto de voltar aos textos lúcidos, irônicos e muitas vezes doces do velhinho. Que, finalmente, vai ter que se entender com Deus! =)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ele me conhece

Eu aqui vagabundeando em Curitiba, de férias, enquanto meus dois irmãos tocam suas vidas em ritmo normal - Mano dando mil aulas de violino, viajando semanalmente a Campinas para uma aula de mestrado e com todos os compromissos com a orquestra, que incluem concertos fora da cidade durante o final de semana; André descascando um frila com deadline para domingo e trabalhando normalmente - ou seja, freneticamente - na editoria de economia da Gazeta.

Hoje à tarde dei mais uma boa pernada pelo centro da cidade e fui novamente ao shopping Estação, onde já tinha feito ontem umas comprinhas na Arezzo (promoção arrasadora) e na Levi's (para o namorado). Desta vez me dediquei a fuçar em alguns bons sebos que ficam pelo caminho e acabei voltando ao Estação, onde garimpei alguns itens legais e baratinhos de papelaria na Kalunga.

Chegando em casa, entrei no GTalk e me preocupei em avisar o André que tinha chegado. O diálogo:

mim: oi, cheguei
André: oi
André: e estavas onde mesmo?
mim: fui ao centro e no shopping estação de novo.
André: ah. quantos pares?

Hahaha

Pena que a grana é curta, e as malas, pequenas demais. Porque as promoções no comércio de Curitiba realmente são uma tentação...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Para refletir numa tarde chuvosa de quinta

"Tenha preferências, mas não seja obstinado nas escolhas."

Robert Bogdan e Sari Bliken, no livro "Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos" (Porto Editora, 1994)

[Citação feita pelo autor de um livro que estou editando. Gostei.]

terça-feira, 16 de junho de 2009

Bloomsday

Vejo no blog da professora Regina que hoje é dia de James Joyce, o escritor irlandês talvez mais aclamado do mundo - e o clima adivinhou, porque com essa chuvinha até parece mesmo estarmos na Irlanda. Enquanto bebo meu brazilian coffee (é cedo demais para um irish) e observo na lista de e-mails a quantidade de abacaxis que terei que descascar no trabalho, lembro que foi "Ulisses", a obra-prima de Joyce, o último presente que dei a meu pai. É a oitava edição publicada pela editora Civilização Brasileira, traduzida pelo Antônio Houaiss (o cara do dicionário?!).

Pai e eu conversamos uma vez sobre esse livro e ele comentou ter vontade de ler - sabia que era um texto árido, mas ele, bom escritor e bom leitor que era, gostaria de encarar. Na época não tinha essa de comprar pela Internet (e obviamente Estante Virtual ainda era idéia de ficção científica), então eu fui a pezito mesmo com minha bolsa de pesquisa na carteira procurar o livro para ele. Rodei bastante, me estressei com um livreiro famoso local, também já falecido, que queria cobrar praticamente o valor da minha bolsa por um exemplar velho e fedorento esquecido no sótão da livraria. Persisti mais um pouco na busca e achei o tal exemplar da Civilização Brasileira, novinho e a um preço possível para uma estudante, na Livros & Livros. Levei para seu Egídio como presente de aniversário, naquele dia primeiro de setembro de 1994. Dois meses depois ele se foi. O livro ficou comigo, marcado na página 19.

Espero hoje à noite poder fazer um brinde de Guinness a Joyce e a seu Egídio. Mas antes tenho que sair de dentro das pantufas, passar pelo chuveiro e encarar Frogville, que hoje tem muito de Dublin. Bom dia pra todo mundo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Onze drops sobre o fim de semana que passou

1) A colheita das laranjas acabou. Hunny e eu surrupiamos um bambu (e o bambu? hehe) da beira do rio do Brás e com isso pudemos apanhar as frutas láááá de cima, que, por pegarem mais sol, suponho, eram as mais bonitas.

2) Aproveitando o clima bucólico, plantamos um pé de abacate. Aguardaremos brincaremos no regato até que nos tragam frutos teu amor teu coração. [Na verdade quem plantou foi hunny, eu só indiquei o local no terreno e fiquei olhando enquanto ele colocava com cuidado a semente germinada na caminha de terra.]

3) Almoçamos tainha no restaurantezinho simples que frequento em Ponta das Canas há quase 20 anos. Estava um dia lindo. No mar, um cardume enorme de golfinhos [golfinhos juntos são um cardume??] deu show.

4) Lavei roupa, passei roupa. Como é bom fazer esse tipo de coisa com calma, caprichando nas borrifadas de Pass Comfort e nas dobraduras dos lençois.

5) Com o frio, ressuscitei minhas pantufas e o aquecedor elétrico [meu R2D2] voltou à ativa. Os cachorros a-dooooooram!

6) Não fui ao show do Roberto, mas ouvi aquela canção: "quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo o mais vá pro inferno". Minha predileta do Rei.

7) Testei um site de backup de blogs que o André me indicou há um tempão. Me loguei e tals, mas sempre que mando fazer o backup dos posts mais antigos ele dá um tilt. E no meu blog apareceu de novo, com data atual, meu primeiro post [a Regina chegou até a fazer um comentário... desculpa aê, fessora!]. Desisti por enquanto.

8) Fiz na sexta-feira a primeira sopa de queijo do ano. Com vinho tinto, é o que há. Outra hora posto a receita, muito facinha.

9) Lola saiu do repouso. Voltou a seu observatório e a perseguir os raios de sol. She's only happy in the sun. Mas ainda manca um pouco de vez em quando, e eu mantenho vigilância. Provavelmente vai ter que ir no vet de novo.

10) Assisti a quatro bons filmes na tv a cabo. Isso sempre acontece quando eu me convenço de que, para cortar despesas, devo deixar esse luxinho de lado. Oh my god.

11) Retomei a leitura dos contos da Virginia Woolf. Do começo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Tá difícil, minha gente

Clarice Lispector que me redima: "Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito."
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Fui. Mas volto.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sobre a biodegradabilidade das certezas

Camões já escrevia sobre isso em 1595:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto.
Que não se muda já como soía.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Os deuses estranhos

Esse post do Ulysses me fez lembrar imediatamente de um texto do Italo Calvino em "As Cidades Invisíveis". Tão triste e lindo que me dou até ao trabalho de reproduzir aqui inteirinho.


Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido: a praça idêntica mas com uma galinha no lugar da estação de ônibus, o coreto no lugar do viaduto, duas moças com sombrinhas brancas no lugar da fábrica de explosivos. Para não decepcionar os habitantes, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual, tomando cuidado, porém, em conter seu pesar em relação às mudanças nos limites de regras bem precisas: reconhecendo que a magnificência e a prosperidade da Maurília metrópole, se comparada com a velha Maurília provinciana, não restituem uma certa graça perdida, a qual, todavia, só agora pode ser apreciada através dos velhos cartões-postais, enquanto antes, em presença da Maurília provinciana, não se via absolutamente nada de gracioso, e ver-se ia ainda menos hoje em dia, se Maurília tivesse permanecido como antes, e que, de qualquer modo, a metrópole tem este atrativo adicional - que mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades de aquilo que se foi.

Evitem dizer que algumas cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Às vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores que os antigos, dado que não existe nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília.



["As Cidades Invisíveis" foi escrito por Italo Calvino em 1972, ano em que eu nasci - e isso não tem a menor importância, é claro. Nos vários pequenos textos, Marco Polo descreve para o rei Kublai Khan o que viu em suas viagens pelo mundo, em cada cidade alegórica. A parte sobre Maurília tem o título "As Cidades e a Memória 5". Pra quem quiser ir atrás, a minha edição é da Cia. das Letras, de 2007, traduzida pelo Diogo Mainardi.]


[[Charge de Richard Wilson publicada na revista inglesa "The Ecologist" em 1971. Tirei do livro "The Doomsday Funbook", coletânea de editoriais e charges dessa revista, publicado pela editora Joe Carpenter em 2006. Não custa lembrar: clique na imagem para ampliar.]]

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mais livros


Aproveitei a dica quentíssima da Adri e comprei hoje os Contos Completos da Virginia Woolf. O preço normal da edição (Cosac Naify), com capa dura e projeto caprichadíssimo, é de quase R$ 70, mas na Siciliano está por R$ 26. Eu namorei um monte esse livro na época do Natal, mas como estava meio caro deixei pra depois. Bola dentríssimo. Fiquei tão feliz que resolvi comemorar almoçando um combinado de salmão.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Nós e os livros

Prosseguindo com a brincadeira iniciada pelo Rogerinho e encaminhada pelo Maurício...

1. Livro que marcou sua infância: os infantis do Monteiro Lobato, como "Reinações de Narizinho", "A Chave do Tamanho" e todos os outros (que inclusive preciso resgatar na casa da minha mãe)
2. Livro que marcou sua adolescência: "1968 - O ano que não terminou", do Zuenir Ventura, que li no segundo ano do segundo grau.
3. Autor que mais admira: Virginia Woolf
4. Autor contemporâneo: José Saramago
5. Leu e não gostou: sofri uma decepção especial com "On The Road", do Jack Kerouac. Persisti até o fim e não entendi por que é tão incensado. Achei a história simplória e o texto, pobre. Mas ainda pretendo dar uma segunda chance a ele.
6. Lê e relê: "Rota 66" e "Abusado", do Caco Barcellos, e "A Sangue Frio", do Truman Capote.
7. Mania: sublinhar a lápis os trechos de que gosto mais.

Passo a bola pra frente: André, Marie e Aline.

domingo, 21 de dezembro de 2008

"O verão é a verdade do sol"

Achei o tal texto sobre o qual falo no post abaixo: é do Rubem Braga. Viva o gúgol, o oráculo dos nossos tempos.


Chegou o verão, e há o que sempre houve: casais que estremecem, confusões conjugais e extra, ansiedade esparsa, caju e abacaxi, viagens bruscas, suaves delírios, telefonemas esquisitos, noitadas vãs. Tudo isso é o verão, e o verão é a verdade do sol. Queimam-se as mulheres. Umas se fazem cor de cobre, outras se doiram, em outras repontam discretamente sardas ao longo do corpo, como estrelas ao crepúsculo. Reparem bem esta comparação: é obviamente ruim mas é tipicamente de verão, e o verão em si não é mau, nem bom. É a nossa profunda, verdadeira verdade.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Aquelas coisas inexplicáveis que fazem todo sentido

Caco Barcellos esteve em Florianópolis lançando o livro-reportagem "Abusado" uns dias antes do meu aniversário, em setembro de 2003. Frank aproveitou bem o ensejo e me presenteou com um exemplar autografado do livro, no qual o mestre Caco escreveu algo como "Para Ana Paula, muito obrigado por apreciar o meu trabalho. Um abraço, Caco Barcellos". Mas nem precisava ser autografado para eu pirar tanto no livro, onde ele conta a história do traficante carioca Marcinho VP e com isso me ensinou muita coisa sobre uma realidade cheia de complexidades do país onde vivo. Devorei o calhamaço de quase 600 páginas em algumas viagens de ônibus entre casa e trabalho. E aquele mesmo exemplar foi lido por mais umas dez pessoas - da família, amigos e colegas do trabalho.

Eu tenho o hábito de passar pra frente livros que já me serviram e que podem ser úteis para outras pessoas. Mas alguns eu guardo embrulhados em papel dourado, e o do Caco era um desses. Só que um dia fui à minha estante procurá-lo, e... cadê? Sumiu. Imaginei que devia estar emprestado. Disparei telefonemas, e-mails e scraps de Orkut para todas as pessoas para quem possivelmente ou impossivelmente eu poderia tê-lo emprestado. Não tive o retorno que esperava. E foi assim que meu exemplar autografado do livro do Caco Barcellos misteriosamente sumiu, levado daqui da minha estante por mãos de alguém que não faço a mínima idéia de quem seja. Isso já faz uns três anos, no mínimo.

Enviuvei do livro. Estive com exemplares novos nas mãos em várias livrarias, mas nunca tive coragem de comprar. Já cheguei a anunciar, perto de datas festivas, que queria um novo de presente, mas nunca ninguém teve coragem de me dar. Cansei de espichar o olho para as novas edições expostas nas livrarias, mas nunca levei nenhuma pra casa. Era como se eu estivesse procurando um substituto para um bicho de estimação que morreu - considerando que os bichos de estimação são sempre insubstituíveis.

O mundo deu suas voltas, muitas voltas aceleradas inclusive, e eu entrei para o amigo secreto organizado pela Cris-Fiona entre 12 blogueiras de vários lugares do país, com a mediação do bem-sacado http://www.amigosecreto.com.br/. A querida Fi, com quem eu vinha trocando contatos pelos nossos blogs e pelo bazar dela, conseguiu reunir um grupo muito bacana. No site cada uma preenchia seu perfil e indicava uma lista de presentes que gostaria de ganhar. Eu fiz uma lista grandinha, versátil e com uma boa dose de cara de pau: pedi perfume de 300 reais, secador de cabelo com emissor de íons, cadeira de praia e uma chaleira vermelha. Pedi também alguns cds, alguns dvds e alguns livros... entre eles o do Caco. Mas não tornei pública a minha história triste com o livro perdido.

No fim das contas a minha amiga secreta era a própria Fiona - o que adorei, já que isso veio reforçar uma amizade que a distância está sendo construída de um jeito muito bacana. Fui ao correio buscar minha caixinha e quando senti o peso do pacote deu um frio na barriga. Pensei de cara "não acredito, a Fi me mandou o 'Abusado'." Entrei no carro e travei uma batalha com aqueles durex indescoláveis com que o pessoal dos correios veda as encomendas Sedex. Depois de esfaquear a caixa com a chave do carro, me deparei com uma caixinha de chocolates chamados "Gotas de Felicidade"; por cima, embrulhado em papel de seda branco, o dvd da Amy Winehouse gravado em Londres (uhú!); e por baixo, o lastro da caixa... ele. Um exemplar reluzente da 19a edição de "Abusado". No meio de tudo, uma cartinha manuscrita da Fiona, transbordante de bom humor, delicadeza e carinho.

Ela pensou em me mandar a felicidade em gotas, mas na verdade mandou felicidade em baldes. O autógrafo material do Caco não sei onde foi parar, mas ficou guardado no meu coração. E o meu exemplar novo vai ser novamente devorado, mas dessa vez não a caminho do trabalho. Meus planos para ele envolvem biquíni, cadeira de praia e guarda-sol. Adorei essas últimas voltas que o mundo deu.

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[Felicidade em baldes pra cá, felicidade em baldes pra lá: a minha amiga secreta era a Bárbara, que pediu um dos livros recém-lançados da Stephenie Meyer. Mandei-lhe logo os dois, com mais um par de ingressos para a pré-estréia, hoje, do filme "Crepúsculo", baseado em um dos livros. Todo dia a caminho do trabalho eu passo por uns três outdoors do filme e fico imaginando que lá em São Paulo a Bárbara também está feliz com o presente que eu mandei.]

sábado, 29 de novembro de 2008

Achei

Finalmente encontrei o livro "Um teto todo seu", da Virginia Woolf, que andava procurando já fazia um tempo. O título está esgotado na editora e hoje consegui uma edição de 1985 num sebo de Porto Alegre, através do maravilhoso site Estante Virtual. Tomara que chegue lo-gooooo!!!

"Cegos da razão": Saramago em entrevista à Folha


Saramago evoca tragédia das chuvas: "Onde está Deus em Santa Catarina?"
Fernanda Brambilla
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Sabatinado pelo jornal "Folha de S. Paulo" nesta sexta-feira, o escritor português José Saramago evocou a
tragédia causada pelas chuvas em Santa Catarina nos últimos dias, que deixaram 100 mortos.

Questionado se sua concepção de Deus tinha mudado após um período em que esteve enfermo, Saramago foi direto: "Onde está Deus em Santa Catarina?", perguntou o escritor, único português a ter sido coroado com o prêmio Nobel de literatura. "Nós nunca vimos Deus. É uma criação da Igreja. Nós acreditamos em Deus quando nos é conveniente."

De acordo com o escritor, a humanidade é causadora das tragédias que a afligem. "Tenho a consciência de que o mundo está errado. E não são apenas as guerras, porque as guerras são a mando de alguns, mas matamos por gosto, por prazer. Se nos perguntarmos quantos delinqüentes existem no mundo - seria um número fabuloso. A verdade é que estamos cegos da razão", disse, e desculpou-se pelo que chamou de "catastrofismo". "A história da humanidade é um caos contínuo."Saramago também não poupou críticas à Bíblia. "A Bíblia é um desastre. Demorou 2.000 anos para ser escrita e isso foi feito por homens", provocou o escritor. "A Bíblia só tem maus conselhos - assassinatos, incestos..."

Em tom de brincadeira, foi além. "Foi a Igreja que inventou Deus. Deus, o Diabo, e até o purgatório, que hoje em dia está um pouco desqualificado", disse.

Saramago se definiu como um "comunista hormonal". "Uma vez me perguntaram se mesmo depois do fim da União Soviética, da queda do Muro de Berlim, eu continuava comunista. Mas as teorias de Marx explicam a destruição de hoje. Na hora eu pensei em responder: 'E depois da Inquisição, você consegue continuar católico?'", questionou, sob aplausos da platéia.

"Da mesma forma em que tenho ar para respirar, tenho um hormônio que me obriga a ser comunista. Pode chamar de fatalidade biológica."
---
A matéria no site da Folha está aqui. Quem me passou a dica de leitura foi o Frank. E o crédito da foto é Tuca Vieira/Folha Imagem.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tristeza e alegria

Saramago é um visionário: a alegria e a tristeza podem andar unidas, não são como a água e o azeite.

[Do "Ensaio sobre a Cegueira"]

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

All that you can't leave behind

[Inspirada pelo Maurício, mas adaptando a idéia à moda deste modesto bloguinho, cuja dona é uma virginiana e logo adora listas]

Filmes que eu escolheria caso fosse condenada a ficar um ano numa solitária, e só pudesse levar cinco DVDs:

1) O Filho da Noiva;
2) Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças;
3) E.T., o Extraterrestre;
4) Fale com Ela;
5) Chocolate.

[e avançando um pouco no devaneio]

Álbuns que eu escolheria caso fosse condenada a ficar um ano numa solitária, só pudesse levar cinco CDs e fosse proibida de levar o MP3 carregado:

1) All that you can't leave behind, U2;
2) qualquer um que eu pegasse aleatoriamente do Ben Harper;
3) qualquer um que eu pegasse aleatoriamente do Lenine;
4) Audioslave, o primeiro deles;
5) Buena Vista Social Club (aquele feito a partir do filme).

[e indo além]

Livros que eu etc etc etc

1) Ulisses (James Joyce);
2) Abusado (Caco Barcellos);
3) Ofício de Cartógrafo (Jesús Martín-Barbero);
4) qualquer uma das coletâneas de tirinhas do Níquel Náusea (Fernando Gonzales);
5) A Sangue Frio (Truman Capote).

[pirando na onda já]

Marcas de cerveja que eu poderia escolher para manter no freezer da minha solitária caso fosse condenada a ficar lá assistindo os mesmos cinco filmes, ouvindo os mesmos cinco CDs e lendo os mesmos cinco livros durante um ano:

1) Heineken;
2) Guinness;
3) Erdinger Pikantus;
4) Eisenbahn Strong Golden Ale;
5) Stella Artois.

[Maurício, quero tuas respostas]

sábado, 8 de novembro de 2008

Relendo Machado

Capítulo XXXII - Olhos de ressaca

(...) - Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora na contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade, do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.

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Bom, é esse o trecho de "Dom Casmurro" em que Bentinho define os olhos de Capitu como "olhos de ressaca", num sentido bem diferente da minha interpretação no post abaixo. Quem me alertou para o fato de que a ressaca do Machado de Assis não era a ressaca que eu estava pensando foi a Adri, que está estudando essa obra no mestrado. Então achei bom, até para o autor não se revirar na sepultura, publicar aqui essa observação: os olhos da Capitu são como uma ressaca do mar; já os meus, eu continuo achando que são meio como os do Garfield - algo do tipo "me passei um pouco ontem, acabei de acordar e continuo com sono". Sem ofensa a Machado e à Capitu.

Em tempo: com essa, peguei o embalo e resolvi reler Dom Casmurro. Adri, beijo pra ti. =)