sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ágape opíparo

Um de meus bordões prediletos é chegar para o Gastão e a Soninha, ao final de um daqueles jantares em que a gente se deleita da entradinha à sobremesa, e dizer "olha, pra variar comemos muito mal e fomos muito mal tratados, mas obrigada por tudo e até a próxima".

Nunca é mentira. Porque, de uma certa maneira, comer mal pode ser a tortura de degustar aquele arroz à piamontesa cheeeeeeeeio de creme de leite fresco que ele faz para acompanhar os filezinhos Wellington (leia-se mignon enrolado em massa folhada estaladinha). Ou aquele ossobuco uuuuuuultra gorduroso soltando a carne, com molho de tomate e servido com talharim e parmesão ralado na hora - em cima do teu prato. Ou a salada de microbatatinhas e ovos cozidos temperada com azeite extravirgem, pimenta calabresa e salsa fresquinha. Ou os tomates assados cujo último pedaço do pote eu sempre cometo a grosseria de pegar sem dividir com ninguém. Ou aqueles moranguinhos delicadamente cobertos com chocolate derretido, ou ainda as sobremesinhas de leite condensado preparadas em muitos copinhos individuais.

E ser mal tratado, de uma certa maneira, pode significar rir até doer as bochechas e ficar com uma preguiça absurda de dirigir de volta pra casa - a vontade é dividir a cama com o fofo Barthés, bassethound do casal.

Então é deveras pertinente que esses meu queridos amigos de longa data tenham colocado no ar, há uns poucos dias, o blog Cozinha a dois, onde generosamente compartilham suas receitinhas, desde aquelas mais especiais até as do dia a dia (como a carninha com cebola que me fez salivar ontem de manhã). Até a saladinha de alface com cenoura ralada e tomate fica uma graça quando feita e descrita por eles. Pra quem gosta de se aventurar na cozinha - preferencialmente com sua cara metade, tempo, papo e um bom vinho - é uma deliciosa fonte de inspiração. Vinda, aliás, de um casal que para mim é exemplo em tantas outras coisas.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Saudação à primavera

A querida amiga Marta Scherer, jornalista como eu, doutoranda em literatura, loura, linda, alta e poderosa, habilmente driblou a correria nossa de cada dia e cometeu a delicadeza de mandar bem cedinho este texto de Cecília Meireles, alertando para a importância de não esquecermos de saudar a primavera, "dona da vida". Não esqueçamos, pois!


Primavera
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, p. 366.