O desktop do meu computador estava um caos absoluto e foi hoje o dia em que eu resolvi me irritar e gastar um tempo fazendo nele uma limpeza daquelas - o que significou, na prática, uma boa geral em todas as minhas pastas de trabalho, estudos, fotos, coisas domésticas, etc. Pois numa pasta de textos aleatórios encontrei o que escrevi há, imagino, uns dois anos e pouco para meu novo perfil do Orkut. Quando comecei o blog, resolvi deixar apenas o link lá no espaço destinado ao perfil, mas como gostava do que tinha escrito sobre mim mesma acabei guardando o texto - e esqueci. Hoje encontrei, reli e gostei de novo:
Já escrevi num "about me" antigo que eu era uma dona da verdade atormentada pelas dúvidas. Em outro escrevi que era uma virginiana típica que não acredita em horóscopo. Daí saí do Orkut, pensei um pouco na vida e voltei. Continuo, contudo, convencida de que as contradições e incertezas fazem parte da vida e dão uma certa graça a ela. Como li outro dia no livro de um francês porreta, as certezas são biodegradáveis. Ou seja, se tenho certeza de uma coisa hoje, amanhã tudo pode se transformar - aquela certeza antiga muda e vira outra coisa. Não que eu seja indecisa ou volúvel. Acho até que sou bem decidida e firme. Mas é que percebi que o movimento faz parte da vida. Li em outro francês porreta que a gente pode sim mudar de opinião, desde que mantenha os princípios. Legal isso. Acho que poder mudar é uma das grandes graças da condição humana. Esses são os pensamentos básicos que têm me norteado ultimamente. Fora isso, sou alguém bem convencional, que vai diariamente de casa pro trabalho, do trabalho pra casa, e que nos sábados se dá ao luxo de dormir até depois das nove. Tento almoçar diariamente com minha mãe e sempre saber como estão meus irmãos. Não tenho irmãs, mas tenho amigas leais que compensam qualquer falta que eu poderia sentir disso. Cuido bem dos meus cachorros e acho que o zelo que tenho com eles pode indicar que eu serei uma boa mãe, se um dia o for. Sei que à primeira vista passo a imagem de sisuda ou fechada - herdei isso de meu pai - mas também sei que geralmente sou fácil de conviver - embora em alguns casos haja uma linha amarela bem definida a não ser cruzada. Tenho defeitos como ser meio direta demais às vezes (muitas, talvez) e exigir demais das pessoas. Sou atrapalhada com chaves - a do carro sou capaz de perder dentro da minha própria bolsa, e isso também herdei do seu Egídio. Já não herdei dele a capacidade de arrumar direitinho as compras de supermercado no porta-malas. Todos os dias, aliás, penso no meu pai. E também tenho saudades do tempo em que só se bebia coca-cola aos domingos - era só 1 litro para cinco pessoas. Hoje não bebo mais coca-cola por opção minha, salvo com finalidades medicinais - ou seja, em casos de ressaca extrema, o que tem sido bem raro. Mas em compensação bebo muito café. Preto, forte e sem açúcar - no máximo com açúcar mascavo, quando é café coado. Tenho procurado andar mais de cabelo solto. Mas o comprimento me incomodou um pouco: passei a tesoura. O reumatologista sempre me diz que não devo usar salto, mas não consigo deixar minhas botas e meus tamancos de lado. Assim como raramente saio de casa sem meus três anéis de prata prediletos - um deles veio parar no meu dedo anular direito há 12 anos, num arquipélago do Atlântico. Adoro internet, vejo meus emails a cada três minutos e também passaria mal sem tv a cabo. Ainda quero voltar a Noronha e ir a Cuba, além de molhar os pés no Oceano Pacífico - o ponto exato ainda não decidi. Pretendo fazer doutorado e sei que preciso abandonar o sedentarismo - mas para ambos ando sem tempo. Meus hábitos saudáveis se restringem basicamente a comer arroz integral e beber bastante água - ando com garrafinha na bolsa. Acredito na ciência mas acho que ela não dá conta de explicar muitas coisas essenciais. Acho que o tempo é uma invenção humana. Outro dia um amigo me disse que eu fiquei melhor com o passar do tempo, essa entidade, mas confesso que fiquei pensando se ele estava sendo irônico - coisa de gente que tem problema de auto-estima. (Pensei em perguntar, e agora perguntei.) Quase sempre estou com fome e provavelmente a resposta será positiva quando me oferecerem uma boa cerveja - desde que o contexto seja favorável. Bom, eu sempre disse que não gostava de perfis enormes do tipo "livro aberto", mas agora estou aqui persistindo nessa verdadeira epístola sem fim. Sabe como é, mudar de opinião, rever conceitos, desmontar certezas, encontrar novos paradigmas... todas essas coisas nas quais eu tenho pensado me levaram a isso. Lembra?
[Vale observar que algumas coisas importantes de fato mudaram: abandonei o sedentarismo; tentei dois doutorados, não consegui, então resolvi esperar mais um pouco para dar esse passo e enquanto espero vou fazer outro mestrado; tenho bebido coca-cola mais do que deveria, mas em compensação nem mascavo uso mais no café - é só cowboy mesmo; tenho alternado os três anéis de prata antigos com os vários que ganhei de presente de hunny; não corto o cabelo desde aquela época, fiz luzes californianas e estou adorando minha cabeleira lisa e dourada.]
[Olhando bem de perto, dá pra dizer que esse textinho é a carta de Pero Vaz de Caminha do meu blog. ;) ]