Privilegiada que sou, estou desde domingo à noite no apartamento de minha mãe, na Carvoeira, para me poupar dos congestionamentos monstruosos provocados pela queda da barreira na SC-401. Na verdade fizemos uma troca: ela foi pra casa onde moro no Norte da Ilha e eu fiquei no apê. Isso incluiu também uma troca de cachorros: ela está com meus amados Lô, Fi e Bá. E eu estou com o Otto. The runner. Meu irmão caçula.
Ficar em casa com o Otto implica algumas responsabilidades, como descer com ele pela manhã para um passeio mais longo pelas imediações da UFSC e mais duas ou três vezes por dia até a frente do prédio. Essa função, que executo com prazer, me fez lembrar que foi o Otto o grande responsável por consolidar a minha vocação cachorreira. Ele ainda era um tisco quando chegou aqui em casa, dado de presente à minha mãe, há nove anos. Cresceu, chegou nos 15 quilos (bastante para um dachshund) e, na opinião do Dr. David, veterinário dele, deve chegar tranqüilamente até os 14 ou 16 anos de idade. Eu acredito no prognóstico: com suas caminhadas diárias, ele é o sujeito mais sarado da minha família - o que inclusive o ajuda a contornar o problema de coluna, típico de cachorrinhos dessa raça.
Otto é um gentledog. O modus operandi do passeio é determinado por ele, que indica os momentos adequados para botar ou tirar a guia, pára nos cruzamentos esperando que eu diga "vamos" para atravessar a rua e só admite fazer *número 2* em locais escondidinhos e gramados - nunca, jamais, em calçadas.
E é ele o verdadeiro dono da casa: tem carta branca para subir na cama da minha mãe e em todos os sofás - devidamente cobertos com forros que são lavados semanalmente; tem brinquedos, suas inseparáveis bolinhas na maioria, espalhados por todos os cômodos (com exceção do quarto do André, onde ele raramente entra); sua cama king size tem lugar fixo na sala de TV.
Teimoso e inteligente, sabe com quem pode folgar e até onde pode folgar. E contribui para a estatística que indica que os dachshunds são os cães com maior índice de mordedura do próprio dono - coisa que ele fez uma ou duas vezes com minha mãe, em momentos de extremo stress e mau humor. Mas tenho certeza de que mesmo tendo feito isso, minha mãe é a pessoa que ele mais ama no mundo. Mesmo com meu empenho em manter a rotina dele o mais parecida possível com o normal, é muito perceptível que ele sente falta dela. Hoje quando chegamos do passeio, cumpri o ritual de botar comida e colocar água fresca no pote; ele ficou me olhando com uma cara meio desconsolada e não comeu. Combinamos então que hoje à noite ou amanhã bem cedo nós vamos para a praia e ele vai reencontrar a mamãe. Acho que ele entendeu, porque enquanto escrevo este post ele está aqui do lado, dormindo estatelado e tranqüilo no melhor sofá da casa.
É o que eu sempre digo: na minha família, a expressão "vida de cão" tem um significado totalmente diferente.
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[A foto foi feita pelo André, que não necessariamente perdeu o posto de filho caçula quando o Otto chegou: minha mãe consegue a proeza de ter dois filhos caçulas. Tanto que muitas vezes ela troca os nomes de um e de outro. O André até que não se importa com isso, mas eu percebo que o Otto fica extremamente ofendido.]



