sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Otto


Privilegiada que sou, estou desde domingo à noite no apartamento de minha mãe, na Carvoeira, para me poupar dos congestionamentos monstruosos provocados pela queda da barreira na SC-401. Na verdade fizemos uma troca: ela foi pra casa onde moro no Norte da Ilha e eu fiquei no apê. Isso incluiu também uma troca de cachorros: ela está com meus amados Lô, Fi e Bá. E eu estou com o Otto. The runner. Meu irmão caçula.

Ficar em casa com o Otto implica algumas responsabilidades, como descer com ele pela manhã para um passeio mais longo pelas imediações da UFSC e mais duas ou três vezes por dia até a frente do prédio. Essa função, que executo com prazer, me fez lembrar que foi o Otto o grande responsável por consolidar a minha vocação cachorreira. Ele ainda era um tisco quando chegou aqui em casa, dado de presente à minha mãe, há nove anos. Cresceu, chegou nos 15 quilos (bastante para um dachshund) e, na opinião do Dr. David, veterinário dele, deve chegar tranqüilamente até os 14 ou 16 anos de idade. Eu acredito no prognóstico: com suas caminhadas diárias, ele é o sujeito mais sarado da minha família - o que inclusive o ajuda a contornar o problema de coluna, típico de cachorrinhos dessa raça.

Otto é um gentledog. O modus operandi do passeio é determinado por ele, que indica os momentos adequados para botar ou tirar a guia, pára nos cruzamentos esperando que eu diga "vamos" para atravessar a rua e só admite fazer *número 2* em locais escondidinhos e gramados - nunca, jamais, em calçadas.

E é ele o verdadeiro dono da casa: tem carta branca para subir na cama da minha mãe e em todos os sofás - devidamente cobertos com forros que são lavados semanalmente; tem brinquedos, suas inseparáveis bolinhas na maioria, espalhados por todos os cômodos (com exceção do quarto do André, onde ele raramente entra); sua cama king size tem lugar fixo na sala de TV.

Teimoso e inteligente, sabe com quem pode folgar e até onde pode folgar. E contribui para a estatística que indica que os dachshunds são os cães com maior índice de mordedura do próprio dono - coisa que ele fez uma ou duas vezes com minha mãe, em momentos de extremo stress e mau humor. Mas tenho certeza de que mesmo tendo feito isso, minha mãe é a pessoa que ele mais ama no mundo. Mesmo com meu empenho em manter a rotina dele o mais parecida possível com o normal, é muito perceptível que ele sente falta dela. Hoje quando chegamos do passeio, cumpri o ritual de botar comida e colocar água fresca no pote; ele ficou me olhando com uma cara meio desconsolada e não comeu. Combinamos então que hoje à noite ou amanhã bem cedo nós vamos para a praia e ele vai reencontrar a mamãe. Acho que ele entendeu, porque enquanto escrevo este post ele está aqui do lado, dormindo estatelado e tranqüilo no melhor sofá da casa.

É o que eu sempre digo: na minha família, a expressão "vida de cão" tem um significado totalmente diferente.
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[A foto foi feita pelo André, que não necessariamente perdeu o posto de filho caçula quando o Otto chegou: minha mãe consegue a proeza de ter dois filhos caçulas. Tanto que muitas vezes ela troca os nomes de um e de outro. O André até que não se importa com isso, mas eu percebo que o Otto fica extremamente ofendido.]

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mais um poema de Drummond


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

[Para quem, como eu, mora no Norte da Ilha.]

[Foto de Daniel Conzi no Diário Catarinense de ontem.]

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Wordless

Nossa, desde sábado sem postar. É que sou assim mesmo: tem alguns períodos em que fico sem palavras. Mas, em compensação, o que penso... affe

sábado, 29 de novembro de 2008

Achei

Finalmente encontrei o livro "Um teto todo seu", da Virginia Woolf, que andava procurando já fazia um tempo. O título está esgotado na editora e hoje consegui uma edição de 1985 num sebo de Porto Alegre, através do maravilhoso site Estante Virtual. Tomara que chegue lo-gooooo!!!

"Cegos da razão": Saramago em entrevista à Folha


Saramago evoca tragédia das chuvas: "Onde está Deus em Santa Catarina?"
Fernanda Brambilla
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Sabatinado pelo jornal "Folha de S. Paulo" nesta sexta-feira, o escritor português José Saramago evocou a
tragédia causada pelas chuvas em Santa Catarina nos últimos dias, que deixaram 100 mortos.

Questionado se sua concepção de Deus tinha mudado após um período em que esteve enfermo, Saramago foi direto: "Onde está Deus em Santa Catarina?", perguntou o escritor, único português a ter sido coroado com o prêmio Nobel de literatura. "Nós nunca vimos Deus. É uma criação da Igreja. Nós acreditamos em Deus quando nos é conveniente."

De acordo com o escritor, a humanidade é causadora das tragédias que a afligem. "Tenho a consciência de que o mundo está errado. E não são apenas as guerras, porque as guerras são a mando de alguns, mas matamos por gosto, por prazer. Se nos perguntarmos quantos delinqüentes existem no mundo - seria um número fabuloso. A verdade é que estamos cegos da razão", disse, e desculpou-se pelo que chamou de "catastrofismo". "A história da humanidade é um caos contínuo."Saramago também não poupou críticas à Bíblia. "A Bíblia é um desastre. Demorou 2.000 anos para ser escrita e isso foi feito por homens", provocou o escritor. "A Bíblia só tem maus conselhos - assassinatos, incestos..."

Em tom de brincadeira, foi além. "Foi a Igreja que inventou Deus. Deus, o Diabo, e até o purgatório, que hoje em dia está um pouco desqualificado", disse.

Saramago se definiu como um "comunista hormonal". "Uma vez me perguntaram se mesmo depois do fim da União Soviética, da queda do Muro de Berlim, eu continuava comunista. Mas as teorias de Marx explicam a destruição de hoje. Na hora eu pensei em responder: 'E depois da Inquisição, você consegue continuar católico?'", questionou, sob aplausos da platéia.

"Da mesma forma em que tenho ar para respirar, tenho um hormônio que me obriga a ser comunista. Pode chamar de fatalidade biológica."
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A matéria no site da Folha está aqui. Quem me passou a dica de leitura foi o Frank. E o crédito da foto é Tuca Vieira/Folha Imagem.

Mantra

O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.
O transtorno para mim é pequeno demais.

etc.

[Depois de passar três horas enrolando no Centro antes de ir pra casa e mesmo assim levar quase duas horas pra chegar por causa da queda da barreira na SC-401.]

Puxa pelo nariz.
Solta pela boca.

Pronto, passou. Vou dormir. [Tenho cama.]

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Solidariedade também com os bichos

Várias entidades protetoras dos animais estão mobilizadas para socorrer e alimentar os animais domésticos também vitimados pela enchente. Vale colaborar com dinheiro, ração ou medicamentos. Todas as informações estão no blog da Ana Corina, uma das minhas ídolas da blogosfera.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Campanha


A campanha é aberta a toda a comunidade.
[Clique na imagem para ampliar.]

Tristeza e alegria

Saramago é um visionário: a alegria e a tristeza podem andar unidas, não são como a água e o azeite.

[Do "Ensaio sobre a Cegueira"]

Somos privilegiados

Na prática, na prática, os transtornos provocados na minha vida por essa catástrofe toda são pequenos demais. Estava viajando e voltei pra casa de avião; minha família ficou bem; os amigos e conhecidos que moram nas cidades mais atingidas estão em segurança e não perderam nada; minha casa não teve nem goteira. A única coisa que pode ser considerada um transtorninho é a dificuldade de ir e vir com a queda da barreira na SC-401 - na prática, isso representa cerca de uma hora a mais gasta no percurso de ida e de volta para o Centro: posso ir pelo desvio de Cacupé ou, quando nessa via está congestionada, optar pelo Rio Vermelho, que é um caminho longo mas sempre flui.

Todos os amigos com quem converso têm uma sensação semelhante à que tenho: somos privilegiados. Moramos em casas seguras e nos deslocamos de carro; numa eventual roubada, podemos recorrer ao cartão de crédito (para comprar uma passagem de avião parcelada, como foi o meu caso, por exemplo). Na prática, pouco de nossa vida se altera em função da catástrofe. Podemos ficar felizes com isso.

Mas é muito, muito triste acompanhar o noticiário, ver as imagens daquelas pessoas que perderam tudo, gente amontoada em canoas deixando suas casas com o que conseguem carregar, com crianças, com animais de estimação. Gente chorando a morte de filhos e irmãos soterrados pela lama. Fiquei destruída com uma senhora que falou para o repórter "minha casa era uma morada boa, senhor, tinha até portão eletrônico", em frente aos destroços da casa que ela deve ter construído com sacrifício e, possivelmente, financiamento. A nós, privilegiados, nos resta colaborar dividindo o que é possível com essas pessoas - o que será sempre muito pouco. E esperar que os recursos de doações em dinheiro e das verbas liberadas pelo governo cheguem às pessoas certas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A inveja é uma merda

É engraçado. Enquanto eu digo e reafirmo que o processo de tattoo no ombro esquerdo re-al-meeeeeeente não doeu, eis que o direito, esse invejoso, resolveu ter mais uma tendinite. Ele, sim, tá doendo pra caramba. Acho que de tanto eu virar o pescoço para o esquerdo, de tanto as pessoas olharem para o esquerdo e de tanto eu cuidar do esquerdo com pomadinha, sabonete de glicerina e curativo, o direito resolveu dizer "ei, eu também quero. E eu sou mais importante porque tu és destra. Logo, se eu inflamar, não vais conseguir fazer nada direito - e nem cuidar do meu irmão-colorido-esquerdo".

Vingativo, esse meu ombro direito. Então estou de novo de castigo - atestado médico, recomendação de repouso (longe do computador ai ai ai), gelo (que eu deteeeesto) e antiinflamatório pancadão. Mas um dia, ah, um dia eu volto pra academia, dou o devido reforço na musculatura e esse assunto vai rarear aqui no meu bloguinho. Vou ter uma conversa com meu ombro direito e explicar pra ele que, mesmo sendo o outro mais bonito, eu amo os dois por igual. E quem sabe não me empolgo e logo enfeito ele também com alguma representação do fundo do mar que inclua uma tartaruga e um cavalo-marinho amarelo. =)

Por enquanto... hasta la vista, baby. Amanhã eu volto.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Vejo flores em você


Sakuras e arabescos. Adorei. E nem doeu.

Viva - e estampada

Enquanto meu estado natal que eu tanto amo vivia essa loucura toda eu estava na capital do estado vizinho, a 1.800 metros de altitude, com clima quente, sol e em segurança. Fiz minha tattoo maravilhosa numa sessão de quatro horas e meia, sábado à tarde, ao som de Rolling Stones, Raul Seixas, Manu Chao e outros sons malucos que o Marcelo Marzari colocou para embalar o trabalho-com-bate-papo. Precisei voltar pra Floripa de avião e foi uma decisão acertadíssima, dadas as condições da BR-101. Estou guardando no meu HD vários dropes sobre o fim de semana para postar aqui, mas no momento preciso liberar o cafofo pro André desempenhar sua função de correspondente de enchente para a Gazeta do Povo - ele veio pra Floripa no sábado à tarde e não conseguiu embarcar de volta pra Curitiba hoje de manhã. Logo, permanecerei sumida mais um pouquinho.

Beijos e abraços pra todos que me ligaram/escreveram para saber se eu e minha famiglia estávamos bem. Graças a deus, todos estamos.

Ah, sim, as fotos da tattoo também vão ter que ficar pra mais tarde. A paciência é uma virtude, minha gente hihihihi.

Fui.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

E parodiando Cazuza

Em Frogville, só as rãs são felizes.

Viver em Frogville já tá chato demais da conta

Por isso vou fazer uma viagenzinha rápida hoje e volto no domingo. Sem notebook. Sumirei, portanto, por uns diazinhos, sem que isso signifique o risco de eu ter morrido afogada no meu quintal-brejo.

Mas voltarei. Estampada, espero. Wish me luck.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

All that you can't leave behind

[Inspirada pelo Maurício, mas adaptando a idéia à moda deste modesto bloguinho, cuja dona é uma virginiana e logo adora listas]

Filmes que eu escolheria caso fosse condenada a ficar um ano numa solitária, e só pudesse levar cinco DVDs:

1) O Filho da Noiva;
2) Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças;
3) E.T., o Extraterrestre;
4) Fale com Ela;
5) Chocolate.

[e avançando um pouco no devaneio]

Álbuns que eu escolheria caso fosse condenada a ficar um ano numa solitária, só pudesse levar cinco CDs e fosse proibida de levar o MP3 carregado:

1) All that you can't leave behind, U2;
2) qualquer um que eu pegasse aleatoriamente do Ben Harper;
3) qualquer um que eu pegasse aleatoriamente do Lenine;
4) Audioslave, o primeiro deles;
5) Buena Vista Social Club (aquele feito a partir do filme).

[e indo além]

Livros que eu etc etc etc

1) Ulisses (James Joyce);
2) Abusado (Caco Barcellos);
3) Ofício de Cartógrafo (Jesús Martín-Barbero);
4) qualquer uma das coletâneas de tirinhas do Níquel Náusea (Fernando Gonzales);
5) A Sangue Frio (Truman Capote).

[pirando na onda já]

Marcas de cerveja que eu poderia escolher para manter no freezer da minha solitária caso fosse condenada a ficar lá assistindo os mesmos cinco filmes, ouvindo os mesmos cinco CDs e lendo os mesmos cinco livros durante um ano:

1) Heineken;
2) Guinness;
3) Erdinger Pikantus;
4) Eisenbahn Strong Golden Ale;
5) Stella Artois.

[Maurício, quero tuas respostas]

Pobres moças

Tenho sentido pena das moças que fazem a previsão do tempo nos telejornais. Como produzir um texto diferente se a notícia é sempre a mesma? Acho que o nome do quadro deveria mudar para "constatação do tempo".

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

I just don't know what to do with myself

A banda é meio freak, mas eu curto esse som.

Like a summer rose needs the sun and rain
I need your sweet love to beat love away


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Que venga el verano

No verão de 2006 escrevi minha qualificação pro mestrado.

No verão de 2007 escrevi a dissertação inteirinha.

No verão de 2008 comecei a minha parte de um livro-reportagem (que só ficou pronto em junho, trampo pacas).

E se o frila que fui negociar hoje de manhã der certo, vai ser mais um verão com manhãs passadas dentro do escritório, com persianas baixas e ar-condicionado ligado.

De qualquer forma, vou comprar uns dois biquínis novos. Porque deus é pai, porque o mar fica ali a 500 metros e porque ainda haverá sábados e domingos felizes. Muito mais do que nos verões passados, aliás.

domingo, 16 de novembro de 2008

Aquelas coisas que não têm preço

Adoro peixe. Frito, ensopado, em isca, em posta, na moqueca, assado. De todos, o que mais me emociona é o salmão. De preferência, cru. Com shoyu e cebolinha verde, é de fechar o comércio. Mas preparar salmão cru é coisa pra profissionais.

Amadora que sou, peguei o filezão maravilhoso que comprei sábado de manhã na melhor peixaria da cidade (que fica no caminho da minha casa). Éramos só eu e mãe pra almoçar, então fracionei o bichinho em duas partes: congelei a mais grossa e resolvi preparar a parte mais fina no forno. Não requer prática, tampouco habilidade (como diz um amigo meu): deitei o filé com a pele para baixo numa travessa, salpiquei sal marinho (esfregando bem, já que não ia dar tempo de deixar marinando), polvilhei um pouco de pimenta-do-reino moída na hora e lavei com suco de limão. Daí acrescentei um bocadinho de alecrim, outro bocadinho de sálvia (ambos desidratados) e uma pitada de sementinhas de endro (que eu adoro).

Enquanto isso, mãe descascou algumas batatas e fez a salada do jeito que aprendemos com a Soninha: misturando as batatas cozidas com três ovos (também cozidos) picados grosseiramente, salsa fresquinha (viva a horta) e azeite de oliva. Pra colorir ainda mais a mesa, desbravamos as possibilidades da minha geladeira de solteira e chegamos a uma salada de rúcula, alface, manga e kani kama.

Não sei quanto tempo o salmão ficou no forno, já que naquele início de tarde em que mãe e filha cozinhavam juntas ninguém olhou para o relógio. Fomos apenas preparando as coisas como numa engrenagem, enquanto eu faço isso tu cuidas daquilo, dá licença, Fidelzinho (os cachorros sempre espalhados na cozinha enquanto o almoço fica pronto), e o tempo foi passando e a comida foi ganhando forma. Tudo preparado tendo apenas a intuição como guia e o bate-papo descompromissado como trilha sonora. Num restaurante qualquer, esse cardápio para duas pessoas não teria saído por menos de R$ 100. Do jeito que aconteceu, realmente entra pra lista de coisas da vida que não têm preço.

Vale dizer: estava tudo uma delícia.