A novidade matinal deste sábado preguiçoso e cinzento é que os papagaios que no ano passado vinham comer as sementes do ipê amarelo estão de volta. Minha mãe já tinha percebido que em volta da árvore tinha várias vagens abertas - ela é uma Sherlock Holmes. E ainda há pouco veio me tirar da cama pra me mostrar que um deles estava na árvore.
Estou sem câmera digital e tentei precariamente fazer uma foto com o celular. Mas ficou péssima, é óbvio. Raios.
Sim, são papagaios mesmo. Verdes, lindos e enormes. Sim, eu também achei estranho no ano passado quando a mãe falou sobre eles pela primeira vez - eu estava viajando, e ela me contou sobre os visitantes inusitados por telefone. E confesso que só acreditei quando vi com meus próprios olhos através das minhas lentes de contato a dupla pacientemente colhendo as vagens da árvore, segurando com uma patinha e tirando as sementes de dentro com movimentos rapidinhos do bico.
Embora tenha achado lindo, fiquei intrigada. Afinal, não me consta que papagaios sejam uma espécie que ocorre na nossa região, como os tucanos - que são difíceis de ver, mas são daqui sim. Fiquei pensando se deveria fazer algo. Consegui precariamente fazer uma foto com o celular e mandei para a lista do Instituto Carijós, da qual participam vários biólogos porretas. Veio a resposta: são papagaios sim, provavelmente de um grupo que se originou a partir de aves que fugiram do cativeiro e se adaptaram aqui pelo Norte. Nada de chamar Ibama: deixa os bichinhos se alimentarem e ficarem numa boa.
Isso me tranqüilizou bastante e comecei a curtir diariamente a visita dos dois. Na época eu ainda trabalhava só no home office e estava fechando um frila grande. Frank ainda morava aqui, mas saía toda tarde. Lá pelas 5 horas eu fazia uma pausinha e ia pra baixo do pé de jabuticaba, que estava fechado de bolinhas pretas, enormes e doces, e ficava lá contemplando meus dois visitantes em seu lanchinho. Isso durou umas três semanas, até que as vagens acabaram e eles devem ter ido encontrar comida em outro lugar.
Pois este ano o ipê floresceu mais cedo, e não vai rolar a alimentação simultânea - eles lá e eu na jabuticabeira. Também estou trabalhando fora e não vou conseguir contemplá-los ao entardecer. Mas fiquei feliz ao saber que eles continuam na área. E fiquei pensando se são os mesmos dois do ano passado...
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