Já que ontem fez 20 anos que ele morreu, vamos hoje de Raul, com um som que poderia ser a música-tema do Certezas. Dedicada a todo mundo que tem coragem pra mudar o que precisa ser mudado e não fica depois de nhém nhém nhém chorando pitanga. Porque mudar de idéia, rever paradigmas, repensar certezas e reorientar convicções também é uma atitude rock and roll.
...porque aquilo que eu penso hoje pode se transformar e virar uma outra coisa amanhã ou depois de amanhã
sábado, 22 de agosto de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Tenho algo a dizer sobre a gripe A
Não, gripe A não é brincadeira. Podem dizer que tem sensacionalismo pra mais ou pra menos, exagero pra mais ou pra menos, sonegação de informações ou teoria da conspiração. Só o que sei com certeza é o que presencio. Desde segunda-feira passada hunny está com a maledeta, e devo dizer que pra derrubar alguém como ele tem que ser um bichinho muito power. A febre constante de 38-39 graus só deu trégua ontem. O tratamento indicado pelo médico, para casos sem complicações maiores como o dele, foi simples: repouso, paracetamol 750 para controlar a febre, isolamento para evitar contágio de outras pessoas, boa alimentação e ingestão de líquido. Ninguém nem mencionou o tal Tamiflu, ou seja, pelo menos com a gripe de hunny a empresa do Donald Rumsfeld não lucrou nem um centavo de dólar ou de real. Testemunhando como ele ficou debilitado, imagino que para crianças, idosos e pessoas com a saúde frágil realmente os efeitos do viruzinho safado sejam bem perigosos. Felizmente não foi aqui o caso. Mas agora está tudo bem e logo ele já vai estar gastando as solas de seus Mizuno nas corridas de 10-15km baía sul afora. E nosso e-dating compulsório vai poder voltar à modalidade presencial... enfim.
sábado, 15 de agosto de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Incubando, talvez...
Kurt Cobain suicidou, Nietszche enlouqueceu, hunny gripou e eeeeeeeeeunãovounadabeeeeeeeem........
[Ah, sim: Ana Carolina é até ok, mas eu gosto mesmo é do vozeirão do Seu Jorge.]
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Um não-post
Acho que é a primeira vez em quase um ano de blog que fico mais de uma semana sem postar nadica. Não é crise existencial nem desencanto. É que ultimamente Wallace, Edgar e Christine (meus três neurônios) estão focados em um projeto acadêmico, formulando perguntas e elucubrando sobre teorias. Talvez em função disso eles não estejam pensando muito nas bobagens cotidianas que alimentam esse modesto espaço. Mas esperamos - eles e eu - que logo a coisa normalize. Até porque o deadline está perto.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Demasiado desumano
Aquele senhor alemão não se revire na sepultura com essa malfeita paródia. Mas acordar às 6h pra mim é algo que se tornou desumano, demasiado desumano. Deve ser a idade. Bom dia.
sábado, 25 de julho de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Minha sopa de letrinhas
Saindo do trabalho depois desse dia modorrento de tão frio, resolvi dar um pulo no supermercado que fica do ladinho da escola pensando em me aventurar numa sopa como aquelas que mamy faz, com carne e legumes. Claro que eu não consigo fazer assim i-guaaaaaaalzinha à dela, mas estou chegando perto. Cestinha na mão, fui ao açougue e pedi uma pecinha de músculo, bem limpinha. Deu 1kg, o que é bastante, mas congelei metade. Lavar, descascar e cortar legumes é demorado e chato, ainda mais lidar com água nesse tempo frio, então comprei um pacotinho daqueles legumes orgânicos embalados a vácuo. Precisava ainda de um carboidrato, e não tenho mais arroz integral pronto (pra cozinhar junto com o restante das coisas ia demorar pacas). Investiguei a prateleira de massas e escolhi um macarrão de letrinhas. Yes!
Foi assim: panela de pressão. Caminha de cebola picadinha, frita no óleo de canola. Carne cortada em cubos grandes para uma primeira selada. Sal marinho, pimenta moída na hora (comprei um mix de cinco pimentas que é da hora). Refogada geral. Água fervendo, acho que mais ou menos um litro e meio. Panela fechada, pressão por 20 minutos. Medinho. Tira a pressão da panela. Alívio. Panela no fogo de novo, agora aberta. Legumes primeiro. Quando a cenoura está quase no ponto, entram as letrinhas. Vou dizer, minha gente: ficou demais. E é tão simples!
Foi assim: panela de pressão. Caminha de cebola picadinha, frita no óleo de canola. Carne cortada em cubos grandes para uma primeira selada. Sal marinho, pimenta moída na hora (comprei um mix de cinco pimentas que é da hora). Refogada geral. Água fervendo, acho que mais ou menos um litro e meio. Panela fechada, pressão por 20 minutos. Medinho. Tira a pressão da panela. Alívio. Panela no fogo de novo, agora aberta. Legumes primeiro. Quando a cenoura está quase no ponto, entram as letrinhas. Vou dizer, minha gente: ficou demais. E é tão simples!
As voltas que o mundo dá
Perdida entre diversas papeladas e providências no escritório de casa esta manhã, precisei buscar uma informação que tinha certeza estar anotada em algum dia de abril ou maio da agenda de 2008 (sim, eu anoto tudo, e também tenho mania de guardar as agendas dos anos anteriores, porque sei que sempre acabo recorrendo a algum registro delas, como ocorreu hoje).
Peguei a agenda de capa vermelha na estante e fui folheando nas imediações de abril-maio. Encontrei a informação de que precisava e muito mais. No dia 26 de maio, uma segunda-feira, a anotação principal, feita com caneta hidrocor azul clarinha, dizia o seguinte:
"ESTA SEMANA: resolver sobre concurso Cefet. Inscrição até 01/06 - prova 08/06"
No dia seguinte, a anotação é:
"Concurso Cefet - R$ 40,00 - OK"
Sabe aquelas decisões acertadas que a gente toma na vida? Essa, sem dúvida, foi uma. Fiquei até de bom humor.
Peguei a agenda de capa vermelha na estante e fui folheando nas imediações de abril-maio. Encontrei a informação de que precisava e muito mais. No dia 26 de maio, uma segunda-feira, a anotação principal, feita com caneta hidrocor azul clarinha, dizia o seguinte:
"ESTA SEMANA: resolver sobre concurso Cefet. Inscrição até 01/06 - prova 08/06"
No dia seguinte, a anotação é:
"Concurso Cefet - R$ 40,00 - OK"
Sabe aquelas decisões acertadas que a gente toma na vida? Essa, sem dúvida, foi uma. Fiquei até de bom humor.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Surreal
Estava eu na fila das cestinhas do Angeloni com minhas microcompras para o fim de semana - nada grandioso, pelo contrário, muito básico, já que de antemão eu sei que não almoço em casa nem sábado nem domingo, portanto as compras deveriam se resumir à ração básica de cafés e sanduíches.
Eu gosto muito de sanduíche com tomate e rúcula, e tomates já tinha em casa, então comprei um daqueles pacotinhos ótimos para pessoas que moram sozinhas, com apenas 80g de rúcula. Várias marcas têm essa opção. No caso a que eu estava levando hoje por estar mais fresquinha era a "Solteirinha". Também compunham minha cesta um pacote de café Melitta (até tinha em casa, mas o preço estava muito bom), uma dúzia de ovos, dois potes do iogurte de que hunny gosta e um pacote de torradas Bauducco do tipo levemente doce (são ótimas com manteiga e acompanhadas de café preto). Pronto, fim de semana garantido. [Vale lembrar que cerveja já tinha em casa.]
Mas então eu estava na fila e na minha frente tinha um zé ruela que me olhou da cabeça aos pés quando cheguei na fila. Não chegava a ser um cara propriamente bem-apessoado, mas era digamos assim medianamente apessoado. Carregava em sua cestinha duas garrafas de vinho cuja qualidade desconheço e uns pedaços de queijo daqueles com coisinhas verdes. Não sei se ele reparou que eu olhei para as compras dele (maldita mania), mas de cara ele olhou para as minhas:
- Puxa, que interessante essa salada individual. Bem prático para quem mora sozinho, né?
Oh my god. E eu totalmente sem paciência para conversinhas casuais com pessoas desconhecidas. Já imaginei que ia rolar um xaveco e que eu iria colaborar com uma historinha para o blog Homem é Tudo Palhaço.
- É.
Silêncio. Ele virado pra trás me olhando.
- Tem outras também? Ou só rúcula?
- Olha, eu só como rúcula. Mas deve ter alface, agrião.
- Ah, tá. Você é solteira?
Ohhhhhhhhh my god.
- Sou. Mas tenho namorado. [Achei que isso estaria óbvio por causa dos dois potões de iogurte, mas enfim.]
- Ah, tá. Olha, eu sou corretor de imóveis, pega aqui o meu cartão, se precisar de alguma coisa, comprar imóvel, alugar, é só me ligar.
Oh my god again. Eu achando que o cara ia me paquerar, já predisposta a achar isso um saco. Mas ele só estava fazendo um comercial...
Eu gosto muito de sanduíche com tomate e rúcula, e tomates já tinha em casa, então comprei um daqueles pacotinhos ótimos para pessoas que moram sozinhas, com apenas 80g de rúcula. Várias marcas têm essa opção. No caso a que eu estava levando hoje por estar mais fresquinha era a "Solteirinha". Também compunham minha cesta um pacote de café Melitta (até tinha em casa, mas o preço estava muito bom), uma dúzia de ovos, dois potes do iogurte de que hunny gosta e um pacote de torradas Bauducco do tipo levemente doce (são ótimas com manteiga e acompanhadas de café preto). Pronto, fim de semana garantido. [Vale lembrar que cerveja já tinha em casa.]
Mas então eu estava na fila e na minha frente tinha um zé ruela que me olhou da cabeça aos pés quando cheguei na fila. Não chegava a ser um cara propriamente bem-apessoado, mas era digamos assim medianamente apessoado. Carregava em sua cestinha duas garrafas de vinho cuja qualidade desconheço e uns pedaços de queijo daqueles com coisinhas verdes. Não sei se ele reparou que eu olhei para as compras dele (maldita mania), mas de cara ele olhou para as minhas:
- Puxa, que interessante essa salada individual. Bem prático para quem mora sozinho, né?
Oh my god. E eu totalmente sem paciência para conversinhas casuais com pessoas desconhecidas. Já imaginei que ia rolar um xaveco e que eu iria colaborar com uma historinha para o blog Homem é Tudo Palhaço.
- É.
Silêncio. Ele virado pra trás me olhando.
- Tem outras também? Ou só rúcula?
- Olha, eu só como rúcula. Mas deve ter alface, agrião.
- Ah, tá. Você é solteira?
Ohhhhhhhhh my god.
- Sou. Mas tenho namorado. [Achei que isso estaria óbvio por causa dos dois potões de iogurte, mas enfim.]
- Ah, tá. Olha, eu sou corretor de imóveis, pega aqui o meu cartão, se precisar de alguma coisa, comprar imóvel, alugar, é só me ligar.
Oh my god again. Eu achando que o cara ia me paquerar, já predisposta a achar isso um saco. Mas ele só estava fazendo um comercial...
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Três décimos de segundo de sofrimento
Hunny e eu temos em comum algo que pode ser sintoma de transtorno obsessivo-compulsivo: nos bares, botecos e afins que frequentamos, gostamos de ocupar sempre a "nossa" mesa. É assim no Botequim, onde foi nosso primeiro papinho com chope, quando ainda éramos colegas de instituição que se conheciam de vista e só trocavam "ois" meio envergonhados no corredor; é assim no Sushiyama, onde sempre reservamos a mesma mesa baixinha e passamos horas recostados nas almofadas, nos empapuçando de salmão jungle (receita nossa feita com sashimi de salmão, raiz forte, shoyo e cebolinha verde); e tem sido também assim no Iega, o pé-limpo-familiar tradicionalíssimo da Carvoeira que fica na esquina da rua da minha mãe, onde costumamos fazer balanços parciais da semana comendo aquele pastelzinho de camarão dilíça com Original geladinha servida pelo Ferreira.
Pois no Iega a "nossa" mesa tem sido uma na área interna do bar, lá no cantinho, na janela, onde ficamos abrigados do vento e apreciando os carros que voam a lombada da frente da padaria, na Romualdo de Barros. Quando a gente chega juntos o Ferreira já vai indo até aquela mesa com o cardápio, mesmo sabendo que o pedido será sempre rigorosamente o mesmo (será que isso também é TOC?).
Normalmente levamos sorte e encontramos a tal mesa desocupada, por mais cheio que o bar esteja. Mas ontem foi diferente. Combinamos de nos encontrar lá - ele estava em casa e eu, na minha mãe. Cheguei primeiro e notei que, embora o bar estivesse vazio, tinha um casal na nossa mesa - os dois lado a lado, ela na janela. Como não estava chovendo nem muuuito frio, resolvi esperá-lo numa mesinha na área externa, apreciando o movimento do entorno das 19h. Minutos depois ele me encontra, com uma expressão de espanto misturada com alívio e humor (sim, isso é possível). Eu nem tinha reparado: a moça do casal que ontem resolveu ocupar a "nossa" mesa estava com um casaco rosa da Adidas, idêntico ao que hunny me deu no dia dos namorados. Quando ele chegou no bar, olhou para a "nossa" mesa à minha procura e se deparou com a moça, de cabelo liso-comprido-escuro como o meu, com um casaco igualzinho ao meu, tascando um beijaço no cara.
Três décimos de segundo depois um dos garçons mais novos disse a ele que eu o estava esperando na mesa da rua. Quando me encontrou, ele ainda estava um pouco vermelho, mas felizmente já estava dando aquele sorriso bonito que nunca aparece nas fotos.
Pois no Iega a "nossa" mesa tem sido uma na área interna do bar, lá no cantinho, na janela, onde ficamos abrigados do vento e apreciando os carros que voam a lombada da frente da padaria, na Romualdo de Barros. Quando a gente chega juntos o Ferreira já vai indo até aquela mesa com o cardápio, mesmo sabendo que o pedido será sempre rigorosamente o mesmo (será que isso também é TOC?).
Normalmente levamos sorte e encontramos a tal mesa desocupada, por mais cheio que o bar esteja. Mas ontem foi diferente. Combinamos de nos encontrar lá - ele estava em casa e eu, na minha mãe. Cheguei primeiro e notei que, embora o bar estivesse vazio, tinha um casal na nossa mesa - os dois lado a lado, ela na janela. Como não estava chovendo nem muuuito frio, resolvi esperá-lo numa mesinha na área externa, apreciando o movimento do entorno das 19h. Minutos depois ele me encontra, com uma expressão de espanto misturada com alívio e humor (sim, isso é possível). Eu nem tinha reparado: a moça do casal que ontem resolveu ocupar a "nossa" mesa estava com um casaco rosa da Adidas, idêntico ao que hunny me deu no dia dos namorados. Quando ele chegou no bar, olhou para a "nossa" mesa à minha procura e se deparou com a moça, de cabelo liso-comprido-escuro como o meu, com um casaco igualzinho ao meu, tascando um beijaço no cara.
Três décimos de segundo depois um dos garçons mais novos disse a ele que eu o estava esperando na mesa da rua. Quando me encontrou, ele ainda estava um pouco vermelho, mas felizmente já estava dando aquele sorriso bonito que nunca aparece nas fotos.
[Taí o casaco. Mas essa sou eu.]
terça-feira, 14 de julho de 2009
Nada es más simple
Sim, fiquei bestinha: é essa música que toca no celular de hunny quando eu telefono. Nada é mais simples.
Tu beso se hizo calor,
Luego el calor, movimiento,
Luego gota de sudor
Que se hizo vapor, luego viento
Que en un rincón de la rioja
Movió el aspa de un molino
Mientras se pisaba el vino
Que bebió tu boca roja.
Tu boca roja en la mía,
La copa que gira en mi mano,
Y mientras el vino caía
Supe que de algún lejano
Rincón de otra galaxia,
El amor que me darías,
Transformado, volvería
Un día a darte las gracias.
Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.
El vino que pagué yo,
Con aquel euro italiano
Que había estado en un vagón
Antes de estar en mi mano,
Y antes de eso en torino,
Y antes de torino, en prato,
Donde hicieron mi zapato
Sobre el que caería el vino.
Zapato que en unas horas
Buscaré bajo tu cama
Con las luces de la aurora,
Junto a tus sandalias planas
Que compraste aquella vez
En salvador de bahía,
Donde a otro diste el amor
Que hoy yo te devolvería
Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.
[Seria Jorge Drexler um novo Chico Buarque?]
domingo, 12 de julho de 2009
Reencontrando Nietszche e Woody Allen
Tudo bem que era um dia ensolarado, mas a arrumação no escritório era urgente. O problema de arrumar escritório e mexer com papeladas antigas é o tempo que a gente leva lendo coisas legais e rasgando o que já não presta. No meio de um bolo de revistas achei alguns exemplares da Piauí, um oásis de excelentes textos no mercado editorial nacional. Um de meus prediletos é este do Woody Allen, uma inteligentíssima alegoria a respeito de hipotéticas teorias culinárias nietszcheanas. Como é bom reeditar gargalhadas depois de tanto tempo.

Assim comia Zaratustra
Descoberto o livro de dieta do autor de “Além do bem e do mal passado” e “A vontade de poder encher a pança”
Nada como a descoberta de uma obra desconhecida de um grande pensador para deixar a comunidade intelectual alvoroçada e fazer os acadêmicos correrem para todos os lados, como aquelas coisinhas que a gente vê quando examina uma gota d'água num microscópio. Durante uma recente viagem a Heidelberg, feita com o intuito de conseguir algumas raras cicatrizes de duelo do século XIX, calhou de eu esbarrar justamente com um tesouro desse tipo. Quem poderia imaginar que existia um Livro da dieta de Friedrich Nietzsche? Embora sua autenticidade possa parecer temerária para os que se deixam tolher por ninharias, a maior parte dos que estudaram a obra concorda em que nenhum outro pensador ocidental chegou tão perto de conciliar Platão com Dr. Atkins. A seguir, trechos seletos.

Assim comia Zaratustra
Descoberto o livro de dieta do autor de “Além do bem e do mal passado” e “A vontade de poder encher a pança”
Nada como a descoberta de uma obra desconhecida de um grande pensador para deixar a comunidade intelectual alvoroçada e fazer os acadêmicos correrem para todos os lados, como aquelas coisinhas que a gente vê quando examina uma gota d'água num microscópio. Durante uma recente viagem a Heidelberg, feita com o intuito de conseguir algumas raras cicatrizes de duelo do século XIX, calhou de eu esbarrar justamente com um tesouro desse tipo. Quem poderia imaginar que existia um Livro da dieta de Friedrich Nietzsche? Embora sua autenticidade possa parecer temerária para os que se deixam tolher por ninharias, a maior parte dos que estudaram a obra concorda em que nenhum outro pensador ocidental chegou tão perto de conciliar Platão com Dr. Atkins. A seguir, trechos seletos.
***
A gordura propriamente dita é uma substância ou a essência de uma substância ou um modo de tal essência. O grande problema tem início quando ela se acumula nos quadris. Entre os pré-socráticos, foi Zenão quem preconizou que o peso era uma ilusão, e que, por mais que um homem comesse, ele sempre engordaria apenas a metade do que engorda um homem que nunca faz flexões de braço. A busca de um corpo ideal obcecava os atenienses e, numa peça perdida de Ésquilo, Clitemnestra quebra seu juramento de nunca mais fazer boquinhas entre as refeições e arranca os olhos quando se dá conta de que não cabe mais em seus trajes de banho.
Foi necessária a mente de Aristóteles para assentar o problema do peso em termos científicos. Num fragmento inicial da Ética, ele afirma que a circunferência de qualquer homem é igual à medida da sua cintura multiplicada por pi. Isso foi o bastante até a Idade Média, quando Tomás de Aquino traduziu uma série de cardápios para o latim e foram inaugurados os primeiros bons restaurantes de frutos do mar. Jantar fora de casa ainda era malvisto pela igreja e o uso de manobristas na porta era um pecado venial.
Como se sabe, durante séculos, Roma encarou o Sanduíche Quente e Aberto de Peru como o máximo da libertinagem. Vários sanduíches foram obrigados a ficar fechados, e só reabriram depois da Reforma. Pinturas religiosas do século XIV foram as primeiras a retratar cenas de condenação eterna em que pessoas com excesso de peso vagavam pelo Inferno, condenadas a saladas e iogurte. Os espanhóis foram especialmente cruéis: durante a Inquisição, um homem podia ser levado à pena de morte por rechear um abacate com carne de siri.
Nenhum filósofo chegou perto de solucionar o problema da culpa e do peso até que Descartes separou mente e corpo, de tal modo que o corpo podia se empanturrar à vontade, enquanto a mente pensava: "E daí? Não sou eu". A grande questão da filosofia perdura: se a vida não tem sentido, o que se pode fazer com a sopa de letrinhas? Foi Leibniz quem primeiro disse que a gordura consistia em mônadas. Leibniz fazia dieta e exercícios, mas nunca chegou realmente a se livrar de suas mônadas - ou, pelo menos, não daquelas que aderiram às suas coxas. Spinoza, por outro lado, jantava frugalmente porque acreditava que Deus existia em tudo, e é intimidador abocanhar um pãozinho judaico se a gente acha que está lambuzando de mostarda a Causa Primeira de Todas as Coisas.
Existe uma relação entre uma dieta saudável e o gênio criativo? Basta observar o caso do compositor Richard Wagner e verificar o que ele manda para a bucho. Batatinhas fritas, queijo grelhado, nachos - Santo Deus, não há limite para o apetite do sujeito, e mesmo assim sua música é sublime. Cosima, sua esposa, também não fazia feio, mas pelo menos ela corria todos os dias. Numa cena cortada do ciclo dos Anéis, Siegfried resolve ir jantar fora com as donzelas do Reno e, num estilo heróico, consome um boi, duas dúzias de galinhas, diversos cilindros de queijo e quinze barriletes de cerveja. Em seguida, vem a conta e ele está duro. A questão aqui é que, na vida, a pessoa tem direito a um acompanhamento de salada de repolho ou de batata, e a escolha tem de ser feita sob o terror, com a consciência de que não só o nosso tempo na terra é limitado, como também a maioria das cozinhas fecha às dez horas.
A catástrofe existencial para Schopenhauer não era tanto comer, mas sim beliscar. Ele se exasperava com o inútil ato de mascar amendoins e batatinhas fritas enquanto se cumpriam outras atividades. Assim que se começa a beliscar, assegurava Schopenhauer, a vontade humana não consegue resistir ao impulso de beliscar mais ainda, e o resultado é um universo com migalhas espalhadas por toda parte. Não menos desnorteado se mostrava Kant, que sugeria que pedíssemos o almoço de tal modo que, se todos pedissem a mesma coisa, o mundo iria funcionar de maneira moral. O problema que Kant não previu é que, se todos pedirem o mesmo prato, vai sair briga na cozinha para ver quem fica com o último robalo. "Faça o seu pedido como se o fizesse para todos os seres humanos da terra", recomenda Kant, mas o que acontece se o homem que está ao nosso lado não come guacamole? No fim, é claro, não existem comidas morais - a menos que levemos em conta os ovos quentes.
Em resumo: exceto os meus próprios Além do bem e do mal passado e A vontade de poder encher a pança, entre as receitas de fato importantes que modificaram as idéias ocidentais, a Torta Cremosa de Frango, de Hegel, foi a primeira a utilizar as sobras com implicações políticas relevantes. O Mexidinho de Camarões Fritos com Legumes, de Spinoza, pode ser desfrutado igualmente por ateus e agnósticos, ao passo que uma receita pouco difundida de Hobbes, Costelinhas de Leitão Assadas na Grelha, permanece como um enigma filosófico. O grande lance da Dieta de Nietzsche é que, uma vez que osquilos são perdidos, eles continuam longe de nós - o que não é o caso do Tratado sobre o amido, de Kant.
Café-da-manhã
Suco de laranja
2 fatias de toucinho
Profiteroles
Mariscos assados
Torrada, chá de ervas
O suco da laranja é o próprio ser da laranja manifesto e com isso quero dizer que é a sua natureza genuína, aquilo que lhe confere a sua "laranjidade" e impede que tenha o paladar de, digamos, salmão escaldado ou cereais moídos. Para os devotos, a idéia de qualquer outra coisa que não cereal no café-da-manhã gera sobressalto e pavor, mas com a morte de Deus tudo é permitido, e profiteroles e mariscos podem ser comidos à vontade, e até asinhas de galinha fritas com molho picante e queijo.
Almoço
1 tigela de espaguete, com tomate e manjericão
Pão branco
Purê de batatas
Torta de chocolate com recheio de geléia de damasco e cobertura de chocolate
Os poderosos sempre almoçam comidas gordurosas, bem condimentadas, com molhos pesados, enquanto os fracos ficam beliscando germe de trigo e tofu, convictos de que seu sofrimento lhes renderá uma recompensa na vida após a morte, onde costeletas de cordeiro na grelha fazem o maior sucesso. Mas se a vida após a morte é, como eu sustento, uma eterna recorrência desta vida, então os mansos terão de jantar eternamente pratos de baixas calorias e frango grelhado sem pele.
Jantar
Bife ou salsichas
Batatas douradas
Lagosta à Termidor
Sorvete com creme batido ou bolo em camadas
Esta é uma refeição para o Super-Homem. Deixe que os encucados com a angústia dos altos triglicerídios e da gordura trans comam para agradar ao seu pastor ou nutricionista, mas o Super-Homem sabe que a carne marmorizada e queijos cremosos com sobremesas gordurosas e, ah, sim, muita, muita fritura, é aquilo que Dioniso comeria - se não fosse o seu problema de refluxo.
Aforismos
A epistemologia torna a dieta algo discutível. Se nada existe a não ser dentro da minha mente, não só posso pedir o prato que quiser, como também o serviço será impecável.
O homem é a única criatura capaz de não dar gorjeta para um garçom.
[Originalmente publicado na revista New Yorker e republicado no Brasil na Piauí de fevereiro de 2007]
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Juro que vi
Não, não me filiei a nenhum partido político. Mas foi um bichinho muito parecido com esse aí da foto que eu vi hoje, lindo, voando livremente seu voo desengonçado (o bico verde enorme é desproporcional e parece deixá-lo desequilibrado) em direção à unidade de conservação da UFSC, em Cacupé. Era pouco depois das 9 horas e eu estava dirigindo para o Centro, rumo ao primeiro compromisso do dia. Eu sempre observo as aves durante o percurso, já que a SC-401 passa por vários rios, dois manguezais e muitas áreas ainda verdes da cidade. Mas foi a primeira vez que vi um tucano por ali. Muita gente pode achar bobagem, mas eu achei o máximo.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Luva de pelica
Eita diazinho chato. Dormi demais e perdi a hora de botar o lixo na rua. O-deeeeio lixo acumulado em casa e agora só quarta-feira. Saindo de casa, banho tomado e schedule devidamente planejado, percebo um esguicho brotando do chão do quintal, perto do pé de acerola e do registro da Casan. Vazamento. Oh my god. Um lindo chafariz no jardim que no entanto eu nããããão projetei. Mudei todo o planejamento do dia e ganhei ok dos meus coordenadores para trabalhar em casa por hoje - fazendo plantão à espera do sempre atencioso seu Luís com uma solução para o vazamento. Que, no entanto, só poderá ser efetivamente consertado amanhã, se parar de chover - porque consertar o cano exige o uso de cola, e a cola não seca na chuva. Oh my god de novo. Daí aqui estou eu, com o registro fechado e economizando cada gota de água dentro de casa. Tenho reservatórios, ok, mas é chato. Com o tempo úmido os cachorros ficam fedorentinhos e dormem mais que o normal. Cheguei a pensar que minha vida seria muito mais simples morando sozinha, sem cachorro nem gato nem árvore nem peixe, sozinha mesmo, num apartamento kinder ovo no centro, alugado, sobre o qual eu não teria a mínima responsabilidade em caso de vazamento ou raio que o parta. Passei o dia nessa bad vibe até que hunny me liga para saber como tinha sido meu dia no home office e entre uma coisa e outra pergunta se o pé de abacate já está brotando. Foi o suficiente pra eu me sentir ridícula por reclamar de coisas tão bobas e por me sentir tão vitimada por um simples vazamentinho, que é algo que acontece. A vida é bela. Mesmo em dias de chuva.
Palavrinha do dia: desapego
Resolvi aproveitar a tarde de sábado para dar uma ajeitada no armário. Tive um surto de desapego e resolvi tirar de lá as roupas que não uso - muitas delas eu até gosto, mas não uso sabe-se lá por quê. Nessa onda, resolvi passar pra frente nada menos que nove calças, algumas blusas de lã e a minha linda jaqueta de couro dos tempos da faculdade. Tudo em perfeitas condições de uso, mas todas peças que estavam paradas no armário havia muito muito tempo. Assim abri espaço para colocar coisas novas. Ou simplesmente para guardar melhor as coisas que tenho e que realmente uso - essas é que são as importantes. Não é mesmo?
Cinco coisas que eu não sou
Meus amigos blogueiros sempre dão uma reclamadinha quando tem um meme rolando. Pois eu não me importo em respondê-los - acho que são uma boa oportunidade pra pensar um pouquinho sobre mim mesma (coisas publicáveis, é lógico hehehe). O Maurício me passou a tarefa de falar sobre cinco coisas que eu não sou e gostaria de ser. Então tá:
1) Praticante regular e disciplinada de atividades físicas: é aquela velha história freireana da diferença entre a consciência mágica e a consciência crítica. Eu sei que preciso fazer exercícios, não só por motivos estéticos mas sobretudo por questão de saúde - além de pertencer a uma família de cardiopatas, tenho os problemas articulares. No entanto, a inscrição na academia fica sempre pro mês que vem. Isso há uns... hm... cinco anos pelo menos.
2) Quatro ou cinco quilos mais magra: desde que fiz um tratamento ortomolecular eu perdi 12 quilos com certa facilidade e não os recuperei. Mas pra voltar ao meu corpo razoável eu ainda precisaria emagrecer uns quatro quilinhos. O que não acontece principalmente em função do item 1 e também porque eu não abro mão de comer as coisinhas de que gosto - que, além de rúcula e tomates-cereja, incluem itens mais calóricos como os dois pãezinhos doces com manteiga que estou traçando neste exato momento, com minha segunda xícara de café preto.
3) Autodidata: eu adoro estudar, mas não tenho disciplina para fazer isso sozinha. Para a coisa render eu preciso de um vínculo formal, calendário, prazos e tarefas. Aliás, preciso de prazo para quase tudo, senão vou deixando.
4) Uma baita escritora: tenho uma inveja branca de todos os cronistas, romancistas, poetas e demais escritores que derramam palavras na tela como quem respira. Jamais consegui fazer uma poesia. Acho que enxergo as coisas de maneira muito concreta e abstrair é algo muito difícil pra mim.
5) Violoncelista: até tive oportunidade de estudar esse instrumento, mas eu já estava na faculdade e logo foram surgindo outras tantas prioridades. Além disso, não adianta: eu não tenho o mínimo talento para a música.
Não reclamem, por favor: Ana Corina, Dálete, Rafa, Marie e Fiona.
1) Praticante regular e disciplinada de atividades físicas: é aquela velha história freireana da diferença entre a consciência mágica e a consciência crítica. Eu sei que preciso fazer exercícios, não só por motivos estéticos mas sobretudo por questão de saúde - além de pertencer a uma família de cardiopatas, tenho os problemas articulares. No entanto, a inscrição na academia fica sempre pro mês que vem. Isso há uns... hm... cinco anos pelo menos.
2) Quatro ou cinco quilos mais magra: desde que fiz um tratamento ortomolecular eu perdi 12 quilos com certa facilidade e não os recuperei. Mas pra voltar ao meu corpo razoável eu ainda precisaria emagrecer uns quatro quilinhos. O que não acontece principalmente em função do item 1 e também porque eu não abro mão de comer as coisinhas de que gosto - que, além de rúcula e tomates-cereja, incluem itens mais calóricos como os dois pãezinhos doces com manteiga que estou traçando neste exato momento, com minha segunda xícara de café preto.
3) Autodidata: eu adoro estudar, mas não tenho disciplina para fazer isso sozinha. Para a coisa render eu preciso de um vínculo formal, calendário, prazos e tarefas. Aliás, preciso de prazo para quase tudo, senão vou deixando.
4) Uma baita escritora: tenho uma inveja branca de todos os cronistas, romancistas, poetas e demais escritores que derramam palavras na tela como quem respira. Jamais consegui fazer uma poesia. Acho que enxergo as coisas de maneira muito concreta e abstrair é algo muito difícil pra mim.
5) Violoncelista: até tive oportunidade de estudar esse instrumento, mas eu já estava na faculdade e logo foram surgindo outras tantas prioridades. Além disso, não adianta: eu não tenho o mínimo talento para a música.
Não reclamem, por favor: Ana Corina, Dálete, Rafa, Marie e Fiona.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
I die a little
Jazzinho do Cole Porter no vozeirão da Diana Krall para o final de uma quinta-feira cansativa e um pouco melancólica.
Every time we say goodbye
I die a little
Every time we say goodbye
I wonder why a little
Why the gods above me
Who must be in the know
Think so little of me
They allow you to go
When you're near
there's such an air
of spring about it
I can hear a lark somewhere
begin to sing about it
There's no love song finer
But how strange the change
From major to minor
Every time we say goodbye
[Vou abrir uma Heineken.]
Every time we say goodbye
I die a little
Every time we say goodbye
I wonder why a little
Why the gods above me
Who must be in the know
Think so little of me
They allow you to go
When you're near
there's such an air
of spring about it
I can hear a lark somewhere
begin to sing about it
There's no love song finer
But how strange the change
From major to minor
Every time we say goodbye
[Vou abrir uma Heineken.]
Assinar:
Postagens (Atom)
